
China: uma caixinha de surpresas
Há destinos que imaginamos durante anos. Antes de lá chegarmos já sabemos o que esperar, já vimos centenas de fotografias, vídeos e relatos de viagem, já temos uma ideia formada das paisagens, da comida e das pessoas. E depois há a China, que consegue surpreender-nos precisamente porque chegamos sem saber verdadeiramente o que nos espera.
Poucos países me surpreenderam tanto como a China. Foi, sem sombra de dúvida, a maior caixinha de surpresas de todas as viagens que já fiz, e talvez tenha sido isso que a tornou tão especial. Durante 15 dias na China (em breve sai o roteiro completo), percorri algumas das suas cidades mais emblemáticas, mas rapidamente percebi que estava apenas a descobrir uma pequena parte de um país gigantesco.
Ao contrário de outros destinos asiáticos, a China é um daqueles raros países onde o Google literalmente não funciona. É verdade que encontramos alguns roteiros de viagem e vídeos no YouTube, mas continua a ser um país envolto em mistério e muito menos presente nas redes sociais do que outros destinos asiáticos. Quando aterrei em Xangai, percebi rapidamente que não fazia a menor ideia daquilo que me esperava.
Uma questão de escala
A primeira coisa que a China faz é desmontar por completo a nossa noção de «grande». Os portugueses estão habituados a um país onde uma cidade com 200 mil habitantes já é considerada importante, onde Lisboa e o Porto dominam completamente o panorama nacional. Na China, essa escala deixa simplesmente de fazer sentido.
As cidades parecem não ter fim: arranha-céus até onde a vista alcança, dezenas de linhas de metro, milhões e milhões de habitantes. O que mais me impressionou foi perceber que há cidades consideradas «pequenas» na China com muito mais habitantes do que Portugal inteiro. Tudo é maior: as estações de comboio são enormes, os aeroportos parecem cidades à parte, as avenidas têm dezenas de faixas e há gente e barulho por todo o lado. É um país que, goste-se ou não, nos faz sentir bastante pequenos.












De Xangai às montanhas do Avatar
A aventura começou em Xangai, provavelmente uma das cidades mais modernas do mundo. Foi também aqui que subi ao Shanghai Tower, um dos edifícios mais altos do mundo, de onde se tem uma vista impressionante sobre uma cidade que parece não ter fim. Lá de cima, foi impossível não ficar impressionado com a dimensão de Xangai e perceber que a escala da China é completamente diferente daquilo a que estamos habituados. Mas Xangai foi apenas o aperitivo.
O destino seguinte, Zhangjiajie, parece ter saído de um filme de fantasia, e não é por acaso: foi aqui que James Cameron encontrou inspiração para as montanhas flutuantes do filme Avatar. Ver aquelas formações rochosas a emergirem da neblina é uma experiência difícil de descrever. As fotografias são bonitas, mas não chegam perto de transmitir a verdadeira dimensão daquele cenário. Aproveitámos ainda para visitar a Montanha Tianmen, conhecida pelo impressionante arco natural escavado na rocha, a famosa «Porta do Céu». Entre teleféricos, passadiços suspensos e miradouros sobre as montanhas, foi um dos pontos altos da nossa passagem por Zhangjiajie.












Guerreiros e pandas
Depois veio Xi'an, incluída no roteiro por um motivo muito concreto: conhecer um dos maiores tesouros arqueológicos do planeta, o Exército de Terracota. É impossível não ficarmos impressionados ao entrar no pavilhão onde milhares de guerreiros permanecem alinhados há mais de dois mil anos, cada um com um rosto e uma expressão diferentes. É uma obra monumental e uma daquelas atrações que, por si só, já justificam a viagem.
De Xi'an seguimos para Chengdu, que nos mostrou um lado bem mais tranquilo da China. É a terra dos pandas, e visitar o centro de conservação destes animais foi um dos momentos mais bonitos de toda a viagem. Há qualquer coisa de especial em observar pandas tão de perto: desajeitados, tranquilos e capazes de passar horas a comer bambu. É impossível sair dali sem um sorriso na cara.












Guilin: um lado diferente da China
Guilin, por sua vez, decidiu receber-nos com quase duas horas de chuva torrencial, aquela chuva tão intensa que nem vale a pena abrir o guarda-chuva. Felizmente, a chuva foi de pouca dura e deixou-nos descobrir uma região completamente diferente do resto da viagem. As montanhas cársicas, os rios e a vegetação lembraram-me, em vários momentos, o Vietname. A paisagem era dominada por picos verdes que pareciam surgir do nada, criando um cenário quase irreal.
Foi também aqui que o ritmo da viagem abrandou. Depois de cidades gigantes, arranha-céus e multidões constantes, Guilin mostrou-nos um lado mais calmo da China. Passear junto ao rio, admirar aquelas formações rochosas e simplesmente apreciar a paisagem foi uma mudança de ritmo que soube muito bem.
É curioso como um único país consegue oferecer cenários tão diferentes. Em poucos dias passámos de metrópoles futuristas para montanhas que parecem saídas de uma pintura tradicional chinesa. E essa diversidade acabou por ser uma das maiores surpresas de toda a viagem.












A Grande Muralha e o resto do mundo
Terminámos a viagem em Pequim e, logo no dia da chegada, aconteceu algo completamente inesperado: enquanto estávamos na China, a Europa enfrentava um enorme apagão elétrico que afetou vários países. Foi estranho acompanhar tudo à distância e perceber que um continente enfrentava dificuldades enquanto nós continuávamos a nossa vida normalmente do outro lado do mundo.
Em Pequim visitámos uma das sete maravilhas do Mundo: a Grande Muralha da China. É impossível não ficar impressionado com a dimensão daquela obra. Por mais fotografias ou vídeos que já tenhamos visto, nada nos prepara para a sua verdadeira escala.
É difícil imaginar o esforço humano, a engenharia e a determinação necessários para construir uma obra desta dimensão há tantos séculos. É um daqueles lugares que nos faz parar, olhar em redor e simplesmente apreciar a grandiosidade de uma das maiores realizações da humanidade.












O que fica não são só os monumentos
Mas, sinceramente, o que mais me marcou na China não foram apenas os monumentos. Foi o dia a dia. Foi observar como o país funciona.
Se tivesse de descrever a China numa palavra, uma delas seria «barulho». Muito barulho. Toda a gente parece estar constantemente a ouvir vídeos no telemóvel sem auscultadores: vídeos no TikTok, música, chamadas em alta voz... tudo ao mesmo tempo, no metro, nos restaurantes, nas filas, nos parques, praticamente em todo o lado.
Outra coisa que salta imediatamente à vista é a relação quase inseparável com o telemóvel, que serve para pagar, pedir comida, mostrar documentos, chamar transportes, traduzir, comunicar e fazer absolutamente tudo. As pessoas caminham a olhar para o ecrã, entram na casa de banho com o telemóvel na mão, esperam pelo elevador a olhar para o telemóvel e comem a olhar para o telemóvel. A sensação que fica é a de que o telemóvel faz verdadeiramente parte da vida de cada pessoa.
E depois havia nós. Na China era impossível passar despercebido. Ser ocidental ainda desperta muita curiosidade, sobretudo fora das zonas mais turísticas. Ao longo da viagem, várias pessoas pediram para tirar fotografias connosco. Algumas aproximavam-se timidamente, outras simplesmente sorriam e pediam uma selfie. Durante alguns dias senti-me quase uma celebridade, o que foi tão divertido quanto inesperado. No início estranha-se, depois passa a fazer parte da viagem. E a verdade é que, muitas vezes, éramos tão curiosos por eles como eles eram por nós.
Talvez seja precisamente isso que torna viajar tão interessante: não é apenas conhecer novos lugares, é conhecer novas formas de viver, novas rotinas, novas culturas e novas perspetivas.
A China não foi apenas mais um país riscado do mapa. Foi um choque cultural constante, um país que me obrigou a sair da zona de conforto todos os dias, um destino que me surpreendeu muito mais do que esperava. Nem tudo foi perfeito: houve barreiras linguísticas, dificuldades com algumas aplicações, diferenças culturais, a perda de um voo e momentos em que nos sentimos completamente perdidos. Mas viajar também é isso. É saber adaptar-nos, aceitar que nem tudo funciona da mesma forma e perceber que o mundo é muito maior do que aquilo a que estamos habituados.
Quando penso na China, não penso apenas na Grande Muralha, nas montanhas de Zhangjiajie ou nos guerreiros de terracota. Penso na escala inacreditável das cidades, no contraste entre tradição e modernidade, nos pandas, na chuva torrencial em Guilin, nas selfies inesperadas, no barulho constante e na sensação de estar num lugar completamente diferente de tudo o que já conheci. É exatamente assim que vou guardar este país na memória: como uma enorme caixinha de surpresas que, página após página e cidade após cidade, nunca deixou de me surpreender.
Mas esta é apenas a primeira página, o primeiro capítulo da minha viagem pela China. Um país tão grande e tão diverso não cabe num único artigo, nem muito menos numa única viagem. Nos próximos capítulos vou levar-vos comigo por cada uma das cidades que visitei, partilhar os lugares que mais me marcaram, as histórias, as curiosidades e tudo aquilo que fez desta uma das viagens mais surpreendentes que já vivi. E uma coisa é certa: saí da China com a certeza de que ainda há muito por descobrir e com uma enorme vontade de voltar. 🩷