
Livraria Lello: muito mais do que uma livraria
Os bilhetes para a Livraria Lello foram-nos oferecidos em troca deste artigo. Ainda assim, as opiniões partilhadas são totalmente nossas e refletem apenas a nossa experiência.
Apesar de ser portuense, há sempre lugares na minha própria cidade que gosto de voltar a visitar, e a Livraria Lello é um deles. Situada na Rua das Carmelitas, mesmo perto da Torre dos Clérigos, é uma das atrações que mais turistas recebe todos os anos. É famosa sobretudo pela sua arquitetura neogótica e pela escadaria vermelha, que se tornou um dos seus maiores símbolos. Inaugurada há 120 anos, é também uma das livrarias mais emblemáticas de Portugal, com um edifício que conserva muitos dos seus elementos originais e uma história que vai muito além dos livros.
Recentemente, a livraria ganhou uma nova ala projetada pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira, com diversos espaços dedicados aos livros e à cultura. Mas há muito mais para descobrir para além da famosa escadaria que vemos tantas vezes nas redes sociais. Neste artigo, vou contar-vos um pouco da história da livraria, mostrar-vos como foi a nossa visita e partilhar algumas informações práticas para quem está a pensar conhecê-la.
A história da Livraria Lello
A história da livraria começou muito antes da inauguração do edifício que conhecemos atualmente. Tudo começou em 1869, quando o livreiro francês Ernesto Chardron abriu uma livraria na Rua dos Clérigos, no Porto. Além de vender livros, Chardron dedicava-se também à edição de obras de diversos escritores portugueses, entre os quais Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós. Com o passar dos anos, o negócio foi crescendo e a livraria tornou-se bastante conhecida na cidade, sendo frequentada por escritores e outras figuras ligadas à cultura. Numa época em que os livros tinham um papel importante na divulgação de novas ideias, a livraria acabou por se tornar um espaço de referência para quem acompanhava a vida literária portuense.
Em 1894, os irmãos José e António Lello, que já trabalhavam no comércio e na edição de livros, compraram a Livraria Chardron. Alguns anos depois, decidiram construir um novo edifício na Rua das Carmelitas e entregaram o projeto ao engenheiro Francisco Xavier Esteves. A intenção era criar um espaço maior, capaz de acompanhar o crescimento do negócio e dar mais destaque à atividade livreira. A nova livraria abriu portas a 13 de Janeiro de 1906, numa cerimónia que contou com a presença de várias personalidades da época, incluindo o escritor Guerra Junqueiro. O edifício chamou desde logo a atenção pela sua arquitetura, bastante diferente daquilo que era habitual encontrar nos espaços comerciais da altura.
Desde então, a livraria passou por várias obras de conservação e restauro, que permitiram preservar grande parte do seu aspeto original. Com o aumento do turismo no Porto, começou também a receber cada vez mais visitantes, tornando-se uma das atrações mais procuradas da cidade. Atualmente, recebe cerca de 3.200 pessoas por dia, o que demonstra bem a sua popularidade. Foi precisamente esta grande afluência que levou a que, em Julho de 2015, a livraria passasse a cobrar entrada. Embora se tenha tornado uma das principais atrações turísticas do Porto, mantém a sua atividade como livraria, com obras de autores portugueses e internacionais, incluindo diversas edições exclusivas da própria Lello.
Mais recentemente, em 2026, a livraria inaugurou a nova ala, projetada pelo arquiteto português Álvaro Siza Vieira, com novos espaços dedicados à literatura e à cultura. Uma das principais novidades é a Manifesto Library, criada em parceria com o Service95 Book Club, o clube de leitura fundado pela cantora britânica Dua Lipa. Inaugurada a 27 de Junho, esta biblioteca reúne 100 livros organizados em quatro temas, Poder, Controlo, Voz e Memória. A seleção inclui obras que abordam questões políticas e sociais, algumas das quais chegaram a ser censuradas ou proibidas em diferentes países. Na inauguração estiveram presentes escritores como Margaret Atwood e Salman Rushdie.




















O que ver na Livraria Lello?
Mesmo sendo um espaço interior, a livraria tem muitos cantos e recantos nos seus quase 1.000 m² de área que vale a pena conhecer. Para além da escadaria vermelha, há muito para descobrir, tanto no edifício original como na nova ala. Desde os detalhes da arquitetura neogótica aos espaços mais recentes da nova ala, há vários pontos de interesse que merecem destaque e que vou apresentar de seguida.
1. A fachada neogótica
Antes de entrarmos na livraria, vale a pena olhar com alguma atenção para a sua fachada, projetada por Francisco Xavier Esteves. De estilo neogótico, tem diversos elementos inspirados na arquitetura medieval, como os arcos, os pináculos e os pormenores decorativos na parte superior do edifício. Podemos também ver duas figuras femininas pintadas pelo artista Joseph Bielmann, que representam a Arte e a Ciência. Mais abaixo, encontra-se a inscrição "Lello e Irmão", que recorda o nome com que a livraria abriu em 1906, e um grande arco que enquadra a entrada principal do edifício. A fachada já passou por diferentes obras de restauro ao longo dos anos, que permitiram recuperar as suas cores e preservar os seus detalhes.
2. A famosa escadaria vermelha
A escadaria vermelha é provavelmente o elemento mais conhecido da livraria e também um dos mais fotografados. Falo por experiência própria, porque conseguir uma fotografia sem vários "emplastros" pelo meio não é tarefa fácil! Construída em 1906, foi uma das primeiras escadarias em betão do Porto, algo bastante inovador para a época. Embora pareça feita em madeira, a sua estrutura é de betão revestido com estuque pintado. Na base, podemos ainda encontrar a assinatura do responsável pelo projeto do edifício. Curiosamente, a escadaria nem sempre foi vermelha. Originalmente era castanha, mas durante as obras de restauro de 1993 acabou por ser pintada de vermelho por engano. O escultor José Rodrigues gostou tanto do resultado que a cor foi mantida, tornando-se uma das imagens mais conhecidas da Livraria Lello.
3. O vitral e os detalhes do interior
No teto da livraria encontramos um grande vitral, com cerca de 8 metros de comprimento e 3,5 metros de largura. Desenhado pelo artista holandês Samuel Van Krieken, é composto por 55 painéis de vidro produzidos pela Vidraria Antunes. No centro, podemos ver a figura de um ferreiro e a expressão latina "Decus in Labore", que significa "Dignidade no Trabalho". Durante as obras de restauro de 2018, foi acrescentado um pequeno smile a um dos painéis, que ainda hoje lá está. Além do vitral, podemos encontrar vários bustos de escritores portugueses, como Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco e Antero de Quental, que decoram os pilares da livraria. No piso térreo, ainda existem alguns carris que antigamente serviam para transportar os livros do armazém, na cave, até à zona de venda. Com tanta coisa para ver, é mesmo fácil de não reparar nestes pequenos pormenores, principalmente quando a livraria está cheia de gente.
4. A nova ala de Siza Vieira na Livraria Lello
Inaugurada em Junho de 2026, a nova ala foi projetada pelo arquiteto português Álvaro Siza Vieira, vencedor do Prémio Pritzker em 1992. A ampliação foi feita num edifício adjacente à livraria original, permitindo criar novos espaços e facilitar a circulação dos visitantes. A nova ala está distribuída por diversos pisos, onde encontramos áreas dedicadas aos livros, exposições de arte contemporânea e um auditório destinado a eventos culturais. Um dos elementos que podemos ver neste espaço é uma obra da artista Ana Aragão, baseada num desenho de Siza Vieira, que representa Hefesto e Afrodite, duas figuras da mitologia grega. É também nesta nova ala que se encontram a Manifesto Library, em parceria com Dua Lipa, e a POP Collection, uma coleção de livros exclusiva da livraria.
Manifesto Library
Localizada no auditório da nova ala, a Manifesto Library tem uma organização diferente daquela que encontramos habitualmente numa biblioteca. Em vez de estarem separados por autores ou géneros literários, os livros estão agrupados de acordo com os assuntos que abordam. O espaço foi também pensado para receber apresentações de livros, conversas com escritores e debates, permitindo que o auditório tenha diferentes utilizações ao longo do ano.
POP Collection
Na nova ala encontramos também um piso dedicado à POP Collection, uma coleção exclusiva da Livraria Lello desenvolvida pelo Studio Eduardo Aires. Atualmente, conta com 43 títulos publicados em várias línguas, incluindo muitos clássicos da literatura portuguesa e internacional. Os livros têm capas coloridas, revestimentos em tecido e sobrecapas reversíveis, que permitem alterar o aspeto das edições. A coleção já recebeu várias distinções internacionais na área do design, nomeadamente da Graphis e da Communication Arts.
A nossa experiência na Livraria Lello
No passado sábado, fomos visitar a Livraria Lello, com entrada marcada para as 15.00h. Como já era de esperar, havia bastante gente e uma fila com cerca de 50 pessoas para o mesmo horário. Mesmo assim, estava tudo muito bem organizado, com duas filas, cada uma para um horário de entrada, que iam mudando à medida que os visitantes entravam. Depois de validarem os nossos bilhetes, lá entrámos! É difícil ficar indiferente ao salão principal da livraria, com a escadaria vermelha, as estantes cheias de livros e os tetos trabalhados. Tudo é bastante imponente e faz lembrar um bocadinho o universo de Harry Potter. Aliás, a livraria é muitas vezes associada à famosa saga, sobretudo porque J. K. Rowling viveu no Porto durante alguns anos, na altura em que dava aulas de inglês na cidade. Durante muito tempo, acreditou-se que a Livraria Lello teria servido de inspiração para alguns dos cenários dos livros, embora a escritora já tenha esclarecido que nunca chegou sequer a visitá-la. Ainda assim, percebe-se facilmente porque é que tantas pessoas continuam a fazer esta associação.
Depois de explorarmos o piso da entrada, subimos pela escadaria até ao primeiro andar, onde estivemos a ver algumas das edições especiais da livraria. Adorámos os livros, sobretudo as ilustrações, as capas e os detalhes de cada edição. A visita continuou pela nova ala, que tem um aspeto bastante mais moderno do que o edifício original. Gostámos bastante da Manifesto Library, principalmente pelo ambiente calmo que se sente lá dentro. É difícil de explicar, mas é um espaço que transmite uma tranquilidade muito diferente daquela que encontramos no resto da livraria. Outra coisa que nos chamou a atenção foi toda a organização. Apesar de estar imensa gente, estava tudo impecável, com os funcionários sempre atentos a arrumar os livros e a manter tudo no sítio. No total, estivemos lá pouco mais de uma hora e acho que é o tempo ideal para conhecer os diferentes espaços com calma, ver os livros e reparar nestes pequenos detalhes que acabam por fazer toda a diferença numa visita.
- Localização: Rua das Carmelitas, 144, Porto
- Horário: 09.00h às 19.30h
- Preço: 15,95€ por pessoa, sendo possível descontar o valor na compra de um livro das Edições Livraria Lello
- Duração da visita: entre 1 hora e 1 hora e meia
- Como chegar: a estação de metro mais próxima é a de São Bento, a cerca de 8 minutos a pé, subindo pela Rua dos Clérigos até à Rua das Carmelitas
- Compra de bilhetes: recomendo comprar antecipadamente através do site oficial da livraria, escolhendo o dia e o horário pretendidos
















A Livraria Lello é, sem dúvida, muito mais do que uma simples livraria. Para além dos livros, temos um edifício com 120 anos de história, uma arquitetura incrível e muitos detalhes que vale a pena conhecer. Acho que é daqueles lugares que merece ser incluído num roteiro pelo Porto, mesmo para quem não tem o hábito de ler. À primeira vista, o preço da entrada pode parecer um pouco elevado, mas a verdade é que o bilhete funciona como um voucher que podemos descontar na compra de um livro das Edições Livraria Lello. Há imensos livros bonitos, desde obras sobre o Porto a livros de receitas, ilustrações e grandes clássicos da literatura, muitos deles em edições especiais que acabam por ser uma ótima recordação da cidade. Por tudo isto, acredito que o valor da entrada acaba por compensar e, se estão a planear uma visita ao Porto, recomendo que incluam a Livraria Lello no vosso programa. É um daqueles lugares que vale a pena conhecer, pelo menos uma vez! 🩷


