
Afinal, o que é a Commonwealth?
“Commonwealth” é precisamente daquelas palavras que quase toda a gente reconhece, mas poucas pessoas conseguem explicar. Normalmente, ouvimo-la associada ao Reino Unido, à Austrália, à Nova Zelândia e à família real britânica. É um termo que parece familiar, surge de vez em quando nas notícias e faz parte do nosso imaginário, mas cuja definição nem sempre é assim tão óbvia quanto parece.
A verdade é que a Commonwealth é muito mais do que uma ligação entre o Reino Unido e as suas antigas colónias. Hoje reúne 56 países independentes, espalhados por diferentes continentes e com histórias, culturas e sistemas políticos muito distintos. Como é que países tão diferentes acabaram por fazer parte da mesma organização? E, sobretudo, o que é que os une ainda hoje? Ao longo deste artigo, vou tentar explicar, de forma simples, afinal o que é a Commonwealth e porque é que continua a ser relevante nos dias de hoje.
O que é, afinal, a Commonwealth?
A Commonwealth é uma organização voluntária de 56 países independentes. Cada um destes países tem o seu próprio governo, as suas próprias leis e o seu próprio sistema político. Os países que dela fazem parte continuam totalmente soberanos, mas escolheram juntar-se a uma organização que promove a cooperação entre eles. Essa cooperação acontece em áreas como a educação, a democracia e os direitos humanos, permitindo aos países partilhar conhecimento e encontrar soluções para problemas comuns.
Apesar de serem países independentes e muito diferentes entre si, a maioria dos membros da Commonwealth tem uma ligação histórica ao antigo Império Britânico. Muitos fizeram parte do Império em algum momento da sua história ou mantiveram relações próximas com o Reino Unido. Hoje, essa ligação histórica continua a ser uma das bases da Commonwealth moderna.
Ainda assim, a Commonwealth não é formada apenas por antigas colónias britânicas. É o caso de Moçambique, Ruanda, Gabão e Togo, que nunca fizeram parte do Império Britânico, mas acabaram por se juntar à organização depois de se tornarem independentes. Também não é obrigatório que o inglês seja a língua principal ou oficial do país, sendo apenas a língua de trabalho da Commonwealth. Com o passar dos anos, a Commonwealth passou a reunir países com histórias e relações muito diferentes com o Reino Unido.
A história da Commonwealth
Para conseguirmos entender como surgiu a Commonwealth, vamos recuar até à época em que o Império Britânico era uma das maiores potências do mundo. Durante vários séculos, o Reino Unido foi conquistando e administrando territórios espalhados por diferentes partes do mundo. Foi desta enorme rede de territórios e das relações que se foram criando entre eles que começaram a surgir as bases daquilo que viria a ser a Commonwealth.
As origens no Império Britânico
No século XIX, o Império Britânico tinha territórios em quase todos os continentes. Alguns eram colónias diretamente governadas pelo Reino Unido, enquanto outros tinham mais autonomia. Entre eles estavam o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia e a África do Sul, conhecidos como Dominions. Tinham os seus próprios governos, mas continuavam ligados ao Império Britânico e à coroa. Com o passar do tempo, estes territórios foram ganhando mais autonomia e começaram a ter uma maior participação nas decisões sobre o seu próprio futuro.
Da desagregação do Império à Commonwealth moderna
No início do século XX, os Dominions já tinham os seus próprios governos e tinham cada vez mais liberdade para tomar decisões sem depender diretamente do Reino Unido. Ainda assim, continuavam a reconhecer a coroa britânica como parte importante da sua ligação política. Em 1931, o Estatuto de Westminster deu um passo decisivo ao reconhecer que estes territórios podiam criar e alterar as suas próprias leis sem depender do parlamento britânico. O Império começava assim a mudar, com os seus territórios mais autónomos e cada vez menos dependentes de Londres.
1949: nasce a Commonwealth moderna
Depois da Segunda Guerra Mundial, o Império Britânico estava a mudar rapidamente. Muitos dos seus territórios começavam a preparar-se para a independência e tornava-se cada vez mais difícil manter a antiga relação com o Reino Unido. Em 1949, a Declaração de Londres marcou uma viragem. A partir daí, um país podia continuar a fazer parte da Commonwealth mesmo sendo uma república e tendo o seu próprio chefe de Estado. A Índia teve um papel fundamental nesta mudança, porque estava a tornar-se uma república e queria continuar ligada à Commonwealth.
Quando o Império chegou ao fim
Nas décadas seguintes, muitos territórios da Ásia, África, Caraíbas e Pacífico conquistaram a independência do Reino Unido. O fim do Império Britânico não significou, no entanto, o desaparecimento da Commonwealth. Mesmo depois de se tornarem independentes, muitos destes países escolheram continuar a fazer parte da organização, desta vez através de uma relação baseada na cooperação entre os seus membros.
Uma organização à escala mundial
A partir daí, a Commonwealth continuou a crescer e a receber novos membros. A organização deixou de estar concentrada sobretudo nos antigos territórios do Império Britânico e passou a reunir países cada vez mais diversos. Hoje conta com 56 membros, muitos dos quais aderiram depois de conquistarem a independência, escolhendo manter esta ligação por vontade própria. Esta diversidade tornou-se uma das principais características da organização.
Apesar das suas origens ligadas ao Império Britânico, a Commonwealth continua a atrair novos membros pelas oportunidades de cooperação que oferece. Fazer parte desta rede permite aos países participar em programas de educação e desenvolvimento, criar novas relações e trabalhar em conjunto com outros governos. O exemplo mais recente é o Togo, que aderiu em 2022, tornando-se o 56.º membro da Commonwealth, apesar de nunca ter feito parte do Império Britânico.
Como funciona a Commonwealth?
A Commonwealth funciona de uma forma bastante diferente de uma organização como a União Europeia. Cada país continua a ser responsável pelas suas próprias decisões e a organização não tem um governo que esteja acima dos governos nacionais. Os seus membros reúnem-se para discutir assuntos de interesse comum, partilhar experiências e desenvolver iniciativas em várias áreas. A adesão é voluntária e cada país pode escolher permanecer ou sair da organização.
O Secretariado da Commonwealth, com sede em Londres, ajuda os países-membros a concretizar projetos e acordos definidos em conjunto. Os líderes reúnem-se regularmente para discutir os temas que lhes dizem respeito e procurar soluções que possam beneficiar os diferentes membros. Estas reuniões dão também aos países mais pequenos a oportunidade de participar nas decisões e apresentar os seus interesses.
Por fim, há uma figura que costuma gerar alguma confusão: o rei Carlos III é o Head of the Commonwealth. Isto não significa que governe os países que fazem parte da organização ou que tenha poder sobre os seus governos. Muitos membros são repúblicas e têm os seus próprios chefes de Estado, enquanto outros continuam a ter o rei como seu monarca. O cargo de Head of the Commonwealth é sobretudo simbólico. É também importante distinguir este cargo da função de rei do Reino Unido, porque são duas funções bem diferentes.




Espero que, depois de tudo o que expliquei ao longo deste artigo, fique agora mais claro o que é, afinal, a Commonwealth. Depois de conhecermos a sua história e percebermos como funciona, talvez a palavra já não pareça tão difícil de explicar. Eu própria já tive oportunidade de visitar quatro países que fazem parte da Commonwealth, o Reino Unido, a Austrália, a Nova Zelândia e Singapura. São lugares muito diferentes entre si, e talvez seja precisamente isso que torna esta organização tão interessante. Por trás de uma história em comum, encontramos países com identidades muito próprias e que, ainda assim, escolheram continuar ligados através da Commonwealth. No fundo, é curioso pensar como uma estrutura que nasceu ligada ao Império Britânico conseguiu transformar-se ao longo do tempo e continuar a reunir países que hoje seguem os seus próprios caminhos. 🩷