Se há uma coisa que, passada meia dúzia de horas em solo uzbeque, se percebe facilmente, é que os Chevrolet estão por todo o lado. No início da viagem, desvalorizámos um pouco a situação, até começarmos a reparar que, afinal, quase todos os carros eram Chevrolet. Ao fim de dois dias, a curiosidade falou mais alto e começámos a tentar perceber porque é que havia tantos Chevrolet no Uzbequistão.

A resposta leva-nos à história da produção automóvel no país, às decisões tomadas depois da independência e a um mercado onde, durante muitos anos, a escolha não era assim tão grande. E, apesar de os Chevrolet continuarem a ser omnipresentes, sobretudo fora de Tashkent, o cenário começa agora a mudar, com outras marcas a ganharem cada vez mais espaço nas estradas do país.

Como tudo começou

Tudo começou pouco depois da independência do Uzbequistão, em 1991. Até então, o país fazia parte da União Soviética, que acabou por se dissolver nesse mesmo ano, dando origem a várias repúblicas independentes, entre elas o Uzbequistão. Com a independência, o país começou a procurar formas de desenvolver a sua própria economia e indústria, tendo estabelecido uma parceria com a fabricante sul-coreana Daewoo. Em 1996, foi inaugurada uma fábrica de automóveis na cidade de Asaka, no leste do país, a cerca de 335 km de Tashkent, onde começaram a ser produzidos modelos como o Daewoo Nexia, o Tico e o Damas. Alguns anos mais tarde, depois de a Daewoo ter passado por dificuldades financeiras e de parte do seu negócio automóvel ter sido adquirida pela General Motors, o grupo norte-americano responsável pela Chevrolet, a indústria automóvel uzbeque entrou numa nova fase.

Em 2008, foi criada a GM Uzbekistan, uma parceria entre a General Motors e a indústria automóvel uzbeque. Foi a partir daí que os Chevrolet começaram a ganhar cada vez mais espaço, com modelos como o Spark, o Cobalt e o Lacetti a tornarem-se bastante comuns. Em 2018, o governo uzbeque, através da empresa estatal Uzavtosanoat, passou a controlar a totalidade da empresa e, no ano seguinte, esta passou a chamar-se UzAuto Motors, mantendo a produção de veículos Chevrolet. Mas a produção local não é a única razão para haver tantos carros desta marca. Durante muitos anos, a importação de automóveis estrangeiros esteve sujeita a impostos e taxas bastante elevados, tornando-os muito mais caros do que os modelos produzidos no país. Estas medidas procuravam proteger a indústria nacional, mas acabavam também por limitar a oferta de automóveis estrangeiros a preços acessíveis, tornando os Chevrolet uma das opções mais económicas para os uzbeques.

E os números ajudam a perceber a dimensão deste fenómeno. Em Junho de 2025, a UzAuto Motors atingiu a marca dos 5 milhões de automóveis produzidos desde o início da sua atividade. Mas o mais curioso é perceber quantos destes carros acabam por ser vendidos no próprio país. Em 2024, cerca de 88% dos automóveis novos vendidos no Uzbequistão eram Chevrolet, o que significa que, em cada 10 carros vendidos, aproximadamente 9 pertenciam à mesma marca. O Cobalt foi o modelo mais vendido, seguido do Damas e do Tracker. São números que ajudam a explicar porque é que, durante a nossa viagem, tínhamos a sensação de estar constantemente a ver os mesmos carros, independentemente da cidade onde estávamos.

O fim do domínio dos Chevrolet

Apesar de os Chevrolet continuarem a dominar as estradas do Uzbequistão, nos últimos anos começaram a surgir cada vez mais carros de outras marcas, sobretudo de fabricantes chineses como a BYD, a Chery e a Haval. Os carros elétricos e híbridos também têm vindo a ganhar espaço e, em 2024, a BYD inaugurou uma fábrica na cidade de Jizzakh, perto de Samarkand, com capacidade inicial para produzir 50 mil automóveis por ano. Esta mudança já começa a refletir-se nas vendas. Em 2025, os Chevrolet representavam cerca de 83% dos automóveis novos vendidos no país, uma percentagem ainda bastante elevada, mas ligeiramente inferior aos 88% registados no ano anterior.

Durante a nossa viagem, esta diferença foi bastante evidente. Em cidades como Bukhara, Khiva e Samarkand, continuávamos a encontrar Chevrolet praticamente em todas as ruas. Já em Tashkent, a realidade era um pouco diferente, com muito mais carros de outras marcas, especialmente elétricos da BYD. E não é por acaso que esta mudança se nota mais na capital. Em 2025, cerca de 71% dos novos carros elétricos vendidos no Uzbequistão foram comercializados em Tashkent. Ainda assim, basta sair da capital para perceber que os Chevrolet continuam a fazer parte do dia a dia dos uzbeques e que dificilmente vão deixar de dominar as estradas de um momento para o outro. Vai ser preciso dar tempo ao tempo.

A aventura de andar de carro no Uzbequistão

Uma das coisas que mais utilizámos durante a nossa viagem foi o Yandex, uma aplicação semelhante à Uber que funciona no Uzbequistão. Na verdade, acabámos por fazer praticamente todas as deslocações de carro, porque os preços eram tão baixos que, muitas vezes, nem compensava toda a logística de andar de transportes públicos. E logo na primeira viagem tivemos direito a uma situação bastante caricata. Quando chegámos ao aeroporto de Tashkent, pedimos um carro normal e, para nossa surpresa, apareceu um Chevrolet Spark! Ora, nós levávamos duas malas, uma pequena e outra grande. A pequena ainda coube na bagageira, mas a grande nem pensar... Lá fui eu com a mala em cima das pernas, super apertada, durante a viagem toda. Acho que só se nos tivesse calhado um Smart é que a situação poderia ter sido pior!

Mas o tamanho dos carros acabou por ser o menor dos nossos problemas. Conduzir no Uzbequistão parece ter regras um bocadinho próprias e, comparando com aquilo a que estamos habituados em Portugal, tivemos a “sorte” de apanhar algumas viagens bem interessantes. Telemóveis na mão, música bastante alta e algumas manobras criativas fizeram parte da experiência da viagem. Em Bukhara tivemos mesmo um pequeno susto, quando o nosso motorista quase atropelou uma pessoa. Ia distraído a mexer no telemóvel e não viu uma mulher que atravessava descansadamente na passadeira. Ainda lhe chegou a tocar e, durante uns segundos, ficámos sem perceber muito bem o que tinha acabado de acontecer.

E não foi caso único. Ao longo da viagem fomos percebendo que este estilo de condução era bastante normal por ali. Mesmo assim, continuámos a usar o Yandex praticamente todos os dias, porque era barato, simples e funcionava muito bem para as deslocações dentro das cidades. Fora das cidades, acabámos também por depender bastante do carro. Os comboios de alta velocidade no Uzbequistão têm lugares limitados e, quando fomos tentar marcar a ligação entre Bukhara e Khiva, já estava tudo esgotado. Acabámos por fazer o percurso de transfer privado e, para choque de absolutamente ninguém, o carro que nos apareceu era também um Chevrolet.

Mulher de saia verde e top azul-claro, sorridente, a apontar para o emblema na traseira de um Chevrolet branco com placa uzbequeMulher de óculos de sol e mão na anca diante de um Chevrolet vermelho com placa uzbeque, numa rua com árvoresMulher curvada a rir junto à frente de um Chevrolet branco, com carros escuros e um autocarro verde ao fundoCasal sorridente de óculos de sol a fazer uma selfie dentro de um carro

Depois de 10 dias no país, já era impossível não associar o Uzbequistão aos Chevrolet. O que começou por ser apenas uma curiosidade nos primeiros dias acabou por nos levar a perceber toda uma história de produção local e de um mercado que, durante bastante tempo, praticamente não teve concorrência. O cenário começa agora a mudar, sobretudo em Tashkent, onde já se veem cada vez mais carros de outras marcas. Mas basta sair da capital para perceber que os Chevrolet continuam a dominar completamente as estradas. E, depois de conhecermos toda a história, aqueles carros todos iguais começaram finalmente a fazer sentido. 🩷

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Perguntas frequentes

Porque é que há tantos Chevrolet no Uzbequistão?

Da parceria com a Daewoo à fábrica de Asaka, descobrimos porque é que, em cada 10 carros novos vendidos no país, aproximadamente 9 são Chevrolet, e como foi andar neles de Yandex.

Porque há tantos Chevrolet no Uzbequistão?

Porque a indústria automóvel uzbeque nasceu da parceria com a Daewoo e, mais tarde, com a General Motors, e porque durante muitos anos os carros importados estiveram sujeitos a impostos e taxas elevados. Isso tornou os Chevrolet produzidos no país uma das opções mais económicas.

Onde são produzidos os Chevrolet no Uzbequistão?

Na fábrica de Asaka, no leste do país, a cerca de 335 km de Tashkent, inaugurada em 1996. A produção está hoje a cargo da UzAuto Motors.

Que percentagem dos carros novos vendidos no Uzbequistão são Chevrolet?

Em 2024, cerca de 88%. Em 2025, a percentagem desceu para cerca de 83%.

Qual é o Chevrolet mais vendido no Uzbequistão?

Em 2024, o Cobalt foi o modelo mais vendido, seguido do Damas e do Tracker.

Os Chevrolet vão deixar de dominar as estradas do Uzbequistão?

Dificilmente de um momento para o outro. Marcas chinesas como a BYD, a Chery e a Haval estão a ganhar espaço, sobretudo em Tashkent, mas fora da capital os Chevrolet continuam a dominar.

Como andar de carro nas cidades do Uzbequistão?

Com o Yandex, uma aplicação semelhante à Uber que funciona no país. Usámo-lo praticamente todos os dias, por ser barato e simples.