
Bem-vindos ao Uzbequistão!
Há viagens que escolhemos para descansar, outras pelas paisagens, pela praia ou simplesmente porque alguém nos falou daquele lugar e ficámos com vontade de o conhecer. E depois há aquelas que escolhemos precisamente porque não sabemos muito bem o que esperar. Foi o caso do Uzbequistão! Queríamos fazer uma viagem diferente, daquelas que nos obrigasse a sair da nossa zona de conforto. Confesso que, antes de começarmos a planear, pouco ou nada sabia sobre o país. Sabia que ficava na Ásia Central, que tinha cidades ligadas à famosa Rota da Seda e pouco mais. Mas foi precisamente esse desconhecimento que nos despertou a curiosidade de ir. E, de repente, estávamos a marcar uma viagem de 10 dias para um destino que, até então, nunca tínhamos sequer pensado visitar.
E a verdade é que, se nós sentíamos que sabíamos pouco sobre o Uzbequistão, as pessoas à nossa volta acho que sabiam ainda menos. Foi um choque para algumas pessoas quando souberam e acho que parte disso vem simplesmente do desconhecimento, mas também do facto de o nome terminar em “-istão”, que ainda hoje leva a algumas associações e estereótipos que pouco têm a ver com a realidade do país. Depois de lá estar, posso dizer que me senti muito segura e que esta viagem me mostrou uma coisa bem simples. Muitas vezes criamos uma ideia de um lugar sem nunca o termos conhecido e, quando lá chegamos, percebemos que a realidade é bem diferente. Por isso, sejam bem-vindos ao Uzbequistão! Neste artigo quero dar-vos a conhecer um bocadinho melhor este país e explicar-vos a sua localização, história e cultura.
Informações gerais
- Capital: Tashkent
- Localização: Ásia Central
- População: cerca de 37 milhões de habitantes
- Língua oficial: Uzbeque, mas o russo é também amplamente utilizado
- Moeda: Som uzbeque (UZS), cerca de 1€ = 13.400 UZS
- Religião predominante: Islamismo
- Fuso horário: UTC+5
Localização
O Uzbequistão está localizado na Ásia Central e faz fronteira com cinco países, o Cazaquistão, o Quirguistão, o Tajiquistão, o Afeganistão e o Turquemenistão. Tem uma área de cerca de 448 mil km², ou seja, é quase cinco vezes maior do que Portugal. Uma das suas características mais curiosas é o facto de ser um país “double landlocked”, ou seja, não tem acesso direto ao mar e nenhum dos países com que faz fronteira tem litoral, sendo necessário atravessar pelo menos dois outros países para chegar a uma costa. No mundo inteiro, apenas o Uzbequistão e o Liechtenstein têm esta particularidade.
Grande parte do território do Uzbequistão é constituída por zonas desérticas e áridas, com algumas das maiores extensões de deserto da Ásia Central. Um dos principais exemplos é o deserto de Kyzylkum, que se estende também pelo Cazaquistão. É sobretudo nas regiões de Khiva e Bukhara que esta paisagem mais árida se faz sentir, enquanto Samarkand e Tashkent, mais a leste, estão rodeadas por zonas mais férteis e próximas das áreas montanhosas. Apesar do clima seco, existem várias áreas agrícolas, sendo o algodão uma das principais produções do país, juntamente com o trigo, o arroz, as frutas e os legumes.
A localização do Uzbequistão ajuda também a perceber a importância que esta região teve ao longo da história. Apesar de hoje ser um país sem acesso ao mar, durante séculos esteve no caminho de importantes rotas comerciais que ligavam o Oriente ao Ocidente. A passagem constante de pessoas e mercadorias fez com que algumas das cidades que hoje conhecemos se tornassem importantes pontos de encontro ao longo da Rota da Seda. Samarkand, Bukhara e Khiva são alguns dos melhores exemplos dessa herança e, ainda hoje, é fácil perceber a influência desse passado na arquitetura e na atmosfera que se sente pelas suas ruas.
História
A história do Uzbequistão é muito mais antiga do que o país que conhecemos hoje. Muito antes de ser um país independente, este território foi ocupado por diferentes povos e passou pelas mãos de vários impérios ao longo dos séculos. Foi sobretudo com a Rota da Seda que esta região começou a ganhar uma importância cada vez maior, recebendo comerciantes, viajantes e pessoas vindas de diferentes partes da Ásia e de outros territórios mais distantes. A Rota da Seda não era propriamente uma única estrada, mas uma enorme rede de rotas comerciais que ligava a antiga cidade de Chang’an, atual Xi’an, na China, a várias regiões do Médio Oriente e da Europa, estendendo-se por milhares de quilómetros. Esta ligação entre diferentes regiões permitiu a troca de mercadorias, mas também de conhecimentos, religiões, línguas e costumes, deixando marcas que ainda hoje fazem parte da identidade do país.
Cada povo e império foi deixando a sua própria marca nesta região. Os árabes chegaram à Ásia Central a partir do século VIII e trouxeram consigo o Islão, que acabou por se tornar a principal religião e passou a fazer parte da identidade da região. Mais tarde, os mongóis, liderados por Gengis Khan, conquistaram grande parte da Ásia Central. Após a sua morte, o enorme império que tinha construído foi sendo dividido entre os seus descendentes e, ao longo dos séculos, surgiram diferentes territórios autónomos, conhecidos como khanatos, cada um governado pelo seu próprio khan. Foi neste contexto que surgiu Amir Temur, também conhecido como Tamerlão, uma das figuras mais importantes da história desta região. No século XIV, Temur construiu um enorme império e escolheu Samarkand como capital, transformando a cidade num importante centro de poder e cultura, cuja influência ainda hoje se sente.
Depois do período de Amir Temur, a região continuou dividida entre diferentes territórios. Durante séculos, a Ásia Central manteve-se relativamente independente das grandes potências europeias, até que, no século XIX, o Império Russo começou a avançar cada vez mais para sul. Este avanço estava ligado à expansão territorial da Rússia, mas também ao interesse em controlar rotas comerciais e ganhar maior influência na região. Ao mesmo tempo, o Império Britânico via com preocupação o avanço russo em direção à Índia, que fazia parte do seu império, e tentava travar a crescente influência da Rússia na região. Esta disputa entre os dois impérios ficou conhecida como o “Grande Jogo” e acabou por tornar a Ásia Central num território ainda mais disputado. O avanço russo foi acontecendo aos poucos, através de campanhas militares e da ocupação de diferentes territórios, até que grande parte da região que hoje conhecemos como Uzbequistão ficou sob domínio ou forte influência russa.
Com a Revolução Russa de 1917, a região entrou numa nova fase e, alguns anos mais tarde, passou a fazer parte da União Soviética. Em 1924 foi criada a República Socialista Soviética do Uzbequistão, estabelecendo uma divisão territorial com o nome de Uzbequistão dentro da União Soviética. A partir daí, a região sofreu grandes mudanças. O governo soviético apostou na industrialização e na construção de novas infraestruturas, mas também transformou profundamente a agricultura, dando especial importância à produção de algodão. O Uzbequistão acabou por se tornar um dos principais produtores de algodão da União Soviética, o que teve consequências na economia e na forma como o território era utilizado. Ao mesmo tempo, a influência soviética passou a fazer parte do quotidiano, desde a educação e a organização das cidades até à arquitetura e à utilização da língua russa.
A independência do Uzbequistão foi declarada a 1 de Setembro de 1991, numa altura em que estavam a acontecer grandes mudanças na Europa e na própria União Soviética. A queda do Muro de Berlim, em 1989, foi um dos grandes sinais de que a Guerra Fria estava a chegar ao fim e, nos anos seguintes, várias repúblicas soviéticas começaram também a declarar a sua independência. A União Soviética acabou por ser oficialmente dissolvida em Dezembro de 1991, dando origem a vários novos países. O Uzbequistão foi um deles e, depois de quase sete décadas integrado na União Soviética, começou uma nova fase da sua história. Ou seja, apesar de todo este passado, o Uzbequistão enquanto país tem apenas 35 anos de história.
Cultura
A cultura uzbeque foi sendo influenciada pelos diferentes povos e civilizações que passaram por esta região. A religião ocupa um lugar muito importante na cultura do país e o Islão é a religião predominante no Uzbequistão. Ainda assim, o país é um Estado secular, ou seja, a religião está separada do Estado e existe liberdade religiosa. Esta influência vê-se sobretudo nas cidades históricas, onde encontramos mesquitas, madraças e mausoléus um pouco por todo o lado. Samarkand e Bukhara são bons exemplos disso e foram, durante séculos, importantes centros de estudo e conhecimento do mundo islâmico. Um exemplo mais recente desta importância é o Centro de Civilização Islâmica de Tashkent, que abriu em Março de 2026. O espaço reúne vários objetos e manuscritos relacionados com a história do Islão na região, entre os quais se destaca o Alcorão de Uthman, considerado um dos manuscritos do Alcorão mais antigo.
O artesanato tem também um lugar importante na cultura uzbeque e muitas das técnicas tradicionais são ensinadas desde muito cedo, passando de geração em geração dentro das famílias. Este conhecimento está muito ligado ao trabalho manual e é utilizado na criação de peças de cerâmica, madeira, tecidos, tapetes e bordados, muitas vezes com desenhos e padrões que fazem parte da tradição de cada região. As roupas tradicionais são bastante coloridas e têm muitos padrões e bordados, sendo usadas sobretudo em festas, casamentos e outras ocasiões especiais. A música e a dança estão muito presentes nestes momentos, com instrumentos tradicionais e danças que fazem parte das celebrações sendo que se dá bastante foco aos movimentos das mãos e dos braços.
A gastronomia uzbeque é uma parte muito presente do dia a dia e está muito ligada à forma como as pessoas convivem. O prato mais conhecido é provavelmente o plov, feito com arroz, carne, cenoura e cebola. A comida é geralmente bastante simples, mas as doses são generosas e é muito comum os pratos serem para partilhar. O pão também tem um lugar especial à mesa e é normal encontrá-lo em praticamente todas as refeições. O chá faz igualmente parte destes momentos e é servido ao longo do dia, durante as refeições ou simplesmente quando se recebe alguém. A forma como é preparado e servido tem também as suas próprias tradições, fazendo com que esteja muito presente nos momentos de partilha e nas visitas a casa de familiares e amigos.
Pode parecer estranho, mas uma coisa que também nos chamou bastante a atenção durante a viagem foram os carros. Há Chevrolets por todo o lado no Uzbequistão! Isto acontece porque existe produção local da marca e, devido aos preços mais acessíveis, os Chevrolet acabaram por se tornar dominantes no mercado uzbeque.












Fomos para lá sem saber muito bem o que esperar e acabámos por encontrar um país cheio de história, cidades lindíssimas, comida muito boa e, acima de tudo, uma realidade muito diferente daquela que tínhamos imaginado antes de ir. Foi uma viagem que nos tirou da nossa zona de conforto e que nos fez perceber que, muitas vezes, os destinos de que sabemos menos são precisamente aqueles que mais nos conseguem surpreender. E foi assim que o Uzbequistão, um país que até há pouco tempo nem sequer estava nos nossos planos, acabou por se tornar numa daquelas viagens que vamos guardar com muito carinho. 🩷