Durante 28 anos, Berlim esteve dividida por um muro que separava as duas partes da cidade, mas, mais importante do que isso, mudava a vida das pessoas que ali viviam. De um momento para o outro, várias famílias ficaram separadas e muitas pessoas deixaram de poder circular livremente pela sua própria cidade. O muro tornou-se parte da paisagem de Berlim, mas também da rotina de quem cresceu com aquela divisão.

Para conseguirmos perceber porque é que isto aconteceu, temos de recuar até ao fim da Segunda Guerra Mundial. Foi nessa altura que a Alemanha e a própria cidade de Berlim foram divididas entre os países vencedores da guerra. No início, a divisão era sobretudo política e administrativa, mas, com o passar dos anos, foi-se tornando cada vez mais real na vida de quem vivia em Berlim. Essa separação acabou por se tornar física em 1961, quando as autoridades da Alemanha de Leste decidiram fechar a fronteira e construir o muro. De um lado estava Berlim Ocidental, ligada aos países aliados do Ocidente, e do outro estava Berlim Oriental, sob influência da União Soviética.

Porque foi construído o Muro de Berlim?

A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945 com a derrota da Alemanha, que se rendeu aos Aliados. Os Estados Unidos, o Reino Unido, a França e a União Soviética, que tinham vencido a guerra, ficaram responsáveis pelo controlo da Alemanha. O país foi dividido em quatro zonas, cada uma controlada por uma destas potências. Berlim ficou numa situação semelhante, sendo que, apesar de estar dentro da zona soviética, a cidade acabou também por ser dividida entre os quatro países.

As diferenças na forma de governar foram aumentando e a relação entre os dois lados tornou-se cada vez mais complicada. Em 1949, a Alemanha passou oficialmente a estar dividida em dois países, cada um seguindo um modelo político diferente. A República Federal da Alemanha, conhecida como Alemanha Ocidental, ficou ligada aos Estados Unidos, ao Reino Unido e à França, enquanto a República Democrática Alemã, ou Alemanha de Leste, ficou sob influência da União Soviética. Berlim continuou dividida, mas a parte ocidental ficou como uma espécie de ilha dentro do território da Alemanha de Leste.

Apesar de Berlim estar dividida entre os dois lados, ainda não havia um muro a separar fisicamente a cidade. Havia postos de controlo e algumas restrições, mas ainda era possível passar de uma parte para a outra da cidade tranquilamente. Por isso, Berlim acabou por ser uma das principais vias de saída da Alemanha de Leste para quem queria chegar ao Ocidente. O número de pessoas que aproveitava esta possibilidade foi aumentando, sobretudo entre os mais jovens e os trabalhadores qualificados. Muitos procuravam melhores oportunidades de trabalho e de estudo, enquanto outros queriam simplesmente ter mais liberdade para escolher onde viver. Entre 1949 e 1961, cerca de 2,7 milhões de pessoas deixaram a Alemanha de Leste, muitas delas através de Berlim. Para o governo, esta saída de população estava a tornar-se um problema cada vez maior, não só pela perda de habitantes, mas também pela falta de trabalhadores em várias áreas.

Foi neste contexto que as autoridades da Alemanha de Leste decidiram fechar definitivamente a passagem entre os dois lados da cidade. Na madrugada de 13 de Agosto de 1961, começaram a colocar arame farpado e barreiras nas ruas que ligavam Berlim Oriental a Berlim Ocidental. Muitas pessoas acordaram e encontraram as ruas bloqueadas, sem fazer a mínima ideia de que aquela separação iria durar quase três décadas.

Nos dias seguintes, aquela primeira barreira foi sendo reforçada até se transformar numa estrutura cada vez mais difícil de atravessar. O arame farpado foi substituído por grandes blocos de betão e, junto ao muro, foram construídas torres de vigilância, postos de controlo e uma zona de segurança. A ideia era impedir que as pessoas de Berlim Oriental passassem para Berlim Ocidental. Com o tempo, o muro passou a fazer parte da paisagem da cidade, cortando ruas e separando bairros que antes estavam ligados.

Como era viver com o Muro de Berlim?

Para quem vivia em Berlim, o muro passou rapidamente a fazer parte do dia a dia. As famílias que viviam em lados diferentes da cidade deixaram de se poder visitar, e houve pessoas que ficaram separadas dos seus familiares durante anos. Quem trabalhava ou estudava do outro lado do muro também teve de procurar diferentes soluções, porque muitas das ruas que faziam parte dos seus percursos diários foram fechadas. Um caminho que antes demorava poucos minutos a ser feito podia, de repente, deixar simplesmente de ser possível. O muro acabou por mudar completamente a rotina de quem vivia em Berlim, desde a forma como as pessoas se deslocavam até à maneira como trabalhavam e mantinham contacto com os seus familiares.

A presença do muro não se resumia à grande barreira de betão. Ao longo da fronteira havia também bastante iluminação e outras barreiras que tornavam as tentativas de passagem mais difíceis. Para quem vivia em Berlim Oriental, passar para o Ocidente sem autorização era muito difícil e podia levar à detenção ou até à morte. Por isso, quem tentava atravessá-lo tinha de encontrar formas cada vez mais arriscadas de o fazer.

Mesmo com toda a vigilância, houve pessoas que não desistiram de tentar fugir. Algumas escavaram túneis por baixo do muro, outras esconderam-se dentro de carros para passar os controlos sem serem descobertas. Houve também quem tentasse saltar de edifícios que ficavam junto à fronteira ou procurasse outras formas, muitas vezes bastante arriscadas, de chegar ao outro lado. Algumas pessoas conseguiram, mas muitas outras foram apanhadas e houve quem perdesse a vida durante a tentativa. Cada fuga tinha a sua própria história, mas todas mostravam o risco que algumas pessoas estavam dispostas a correr para conseguir sair da Alemanha de Leste. Para quem vivia daquele lado da cidade, atravessar o muro podia significar muito mais do que chegar ao outro lado de Berlim: podia ser a possibilidade de escolher onde queria viver.

Porque caiu o Muro de Berlim?

No final da década de 1980, a situação na Alemanha de Leste começou a mudar e o descontentamento nas ruas era cada vez maior. Muitas pessoas estavam cansadas das restrições e queriam mais liberdade, sobretudo para viajar e poder sair do país. Ao mesmo tempo, outros países da Europa de Leste estavam a mudar, o que fez com que muitas pessoas começassem a acreditar que o mesmo era possível na Alemanha de Leste. Em 1989, os protestos começaram a crescer e milhares de pessoas saíram às ruas, principalmente em Leipzig. As manifestações aconteciam todas as semanas e juntavam cada vez mais pessoas, que pediam mudanças na forma como o país era governado. A dimensão dos protestos começou a surpreender até quem os organizava. A pressão sobre o governo aumentava e tornava-se cada vez mais difícil manter as mesmas regras.

A 9 de Novembro de 1989, o governo da Alemanha de Leste anunciou novas regras que permitiam às pessoas viajar para o Ocidente com muito menos restrições. Durante uma conferência de imprensa, Günter Schabowski, um dos responsáveis do governo, foi questionado sobre quando é que essas novas regras começariam a ser aplicadas. Schabowski respondeu que seriam válidas “imediatamente”, apesar de as autoridades ainda não terem preparado a abertura dos postos de passagem.

A notícia espalhou-se rapidamente e, nessa noite, concentraram-se milhares de pessoas junto aos postos de passagem. Muitos tinham ouvido a notícia e queriam perceber se era mesmo verdade. Os guardas da fronteira não sabiam como lidar com aquela multidão, enquanto cada vez mais pessoas exigiam passar. Perante a pressão, os portões acabaram por ser abertos. De repente, depois de 28 anos, as pessoas de Berlim Oriental puderam atravessar para Berlim Ocidental sem serem impedidas. Do outro lado, havia pessoas à espera para as receber, e rapidamente começaram os abraços, as lágrimas e as celebrações. Houve quem subisse para cima do muro, quem festejasse nas ruas e quem simplesmente ficasse ali, sem conseguir acreditar que aquela barreira, que tinha feito parte da sua vida, estava finalmente a desaparecer.

A queda do muro não aconteceu toda naquela noite. Nos dias seguintes, milhares de pessoas concentraram-se junto à barreira para ajudar a destruí-la. Muitos berlinenses apareceram com martelos e outras ferramentas e começaram a partir pedaços do betão, enquanto as máquinas iam retirando grandes blocos do muro. Para quem tinha vivido durante décadas com aquela divisão, poder participar na sua destruição tinha um significado enorme.

Nos meses seguintes, grande parte do muro foi retirada e as duas partes de Berlim começaram finalmente a ligar-se outra vez. As ruas foram reabertas, os transportes voltaram a funcionar normalmente e tornou-se possível circular pela cidade sem as barreiras que tinham marcado a vida dos berlinenses durante 28 anos. A queda marcou também o fim da divisão entre a Alemanha de Leste e a Alemanha Ocidental, que acabariam por se reunificar a 3 de Outubro de 1990.

O que resta hoje do Muro de Berlim?

Depois de tudo o que aconteceu, pode parecer estranho pensar que ainda existem partes do Muro de Berlim espalhadas pela cidade e até pelo mundo. Grande parte foi destruída depois da queda, mas alguns troços foram preservados e podem hoje ser visitados. Em alguns pontos da cidade, já não resta qualquer parte do muro, mas pequenas marcas no chão ainda mostram por onde passava a antiga fronteira.

Para quem visita Berlim hoje, passar por estes lugares ajuda a imaginar como era a cidade naquela altura. Custa a acreditar que ruas que hoje parecem completamente normais estiveram durante 28 anos divididas por um muro que separava famílias, cortava caminhos e impedia tantas pessoas de circular livremente. Hoje, podemos atravessar esses mesmos lugares sem qualquer restrição, algo que para quem viveu naquela época parecia impossível. Entre os locais que ainda guardam parte desta história estão os que vou apresentar de seguida.

East Side Gallery

A East Side Gallery é provavelmente o troço mais conhecido do que resta do Muro de Berlim. Com cerca de 1,3 quilómetros, é também uma das maiores galerias de arte ao ar livre do mundo. Depois da queda do muro, mais de uma centena de artistas de vários países foram convidados a pintar este troço, transformando numa enorme galeria aquilo que durante anos tinha representado divisão. Entre as pinturas mais conhecidas está o famoso beijo entre Leonid Brejnev e Erich Honecker.

De mãos apoiadas num troço do muro pintado com dezenas de mãos em preto, branco, azul e cor-de-rosaDuas pessoas agasalhadas e de gorro, em frente a um mural da East Side Gallery com figuras pintadas a vermelho, amarelo e brancoDe costas, a olhar para a lateral de um troço do muro na East Side Gallery, com os edifícios modernos da cidade do outro lado da ruaEm frente a um mural da East Side Gallery com o monte Fuji e um pagode pintados sobre fundo vermelhoUm beijo em frente ao mural do beijo entre Brejnev e Honecker, na East Side Gallery, com as letras em cirílico ao ladoDe costas, a olhar para um mural da East Side Gallery com o Batman e outras figuras de banda desenhadaDe pé em frente a um mural muito colorido da East Side Gallery, com figuras desenhadas a traço grosso e a frase A VIDA É BELA pintada numa delasDuas pessoas agasalhadas em frente a um mural amarelo e azul da East Side Gallery, com caras pintadas a gritar e uma grande figura amarela

Checkpoint Charlie

O Checkpoint Charlie era um dos principais pontos de passagem entre Berlim Oriental e Berlim Ocidental e tornou-se um símbolo da cidade dividida. Por ali passavam sobretudo estrangeiros, diplomatas e militares, já que os habitantes de Berlim Oriental tinham regras muito mais apertadas. Hoje, o posto que se encontra no local é uma reconstrução, mas a zona continua a lembrar uma época em que atravessar aquela rua podia significar passar para um lado completamente diferente da cidade.

Atrás dos sacos de areia da cabine do Checkpoint Charlie, com os letreiros US Army Checkpoint e Allied CheckpointO letreiro que avisa You are leaving the American sector, em inglês, russo e francês, no cruzamento da Friedrichstrasse com a ZimmerstrasseO painel com o retrato de um soldado soviético, no alto de um poste junto ao Checkpoint CharlieA fachada do edifício Haus am Checkpoint Charlie, com a última bandeira do Kremlin pintada a vermelho na parede

Topografia do Terror

Na Topografia do Terror ainda é possível encontrar um dos troços do Muro de Berlim, junto ao terreno onde funcionou a sede da Gestapo e das SS. O local permite juntar a história do muro à história da repressão durante o período nazi, já que a fronteira foi construída naquela zona anos depois. Hoje, o troço preservado pode ser visto gratuitamente no exterior do centro de documentação.

  • Horário: Todos os dias, das 10.00h às 20.00h. A zona exterior, onde está o troço do muro, pode ser visitada até ao anoitecer, no máximo até às 20.00h.
  • Preço: Entrada gratuita.
Em frente à fachada de vidro da Topografia do Terror, com o nome da exposição permanente e a indicação de entrada gratuitaAo ar livre, com um troço do muro, a faixa de areia da antiga fronteira e a estrada logo atrásNo interior do centro de documentação, entre painéis com fotografias e mesas com documentos da exposiçãoUma grande fotografia de 1963 na exposição, com pessoas em cima de escadas e de uma motorizada a olhar por cima do muro

Memorial do Muro de Berlim

O Memorial do Muro de Berlim, na Bernauer Strasse, é um dos melhores lugares para perceber como era a fronteira e o impacto que teve na vida das pessoas. Ainda existem partes do antigo sistema de segurança, incluindo um troço do muro, uma torre de vigilância e uma zona que mostra como era a chamada faixa da morte. O local também conta histórias de pessoas que tentaram fugir e das famílias que ficaram separadas pela construção do muro.

De costas, na zona exterior do memorial, a olhar para os painéis com fotografias históricas e para os postes de ferro que marcam o traçado do muroCom um guarda-chuva, na relva coberta de neve do memorial, com os postes de ferro do antigo traçado do muro atrásA placa no chão que assinala o túnel de fuga conhecido como Tunnel 57, de 1964, no relvado do memorialDe costas, a caminhar ao longo de um troço preservado do muro, com o tubo redondo no topo

Marcas no chão de Berlim

Mesmo onde já não existe qualquer pedaço do muro, ainda é possível encontrar sinais da antiga fronteira. Em várias ruas da cidade, pequenas marcas no chão mostram por onde passava o muro e ajudam a perceber como a divisão atravessava Berlim. Para quem visita a cidade, é uma forma simples de dar com a antiga fronteira mesmo em zonas onde hoje já nada faz lembrar aquela época.

Em Potsdamer Platz, junto à torre verde de sinalização, com os arranha-céus da praça atrásA placa de metal com a inscrição Berliner Mauer encastrada no passeio, com o painel informativo e a avenida atrásSelfie em Potsdamer Platz, ao lado da torre verde de sinalização, com os edifícios altos da praça atrásA placa de metal no chão com a inscrição Berliner Mauer 1961-1989, encaixada entre as lajes do passeio

Pedaços do muro espalhados pelo mundo

Depois da queda do Muro de Berlim, vários pedaços foram retirados e acabaram por sair da cidade. Alguns foram vendidos, outros oferecidos e muitos foram levados para museus, praças e instituições de vários países. Por isso, ainda hoje é possível encontrar fragmentos do muro fora da Alemanha. São pequenos pedaços de betão, mas carregam consigo parte da história de uma barreira que durante 28 anos dividiu uma cidade inteira.

A olhar para troços do muro colocados de pé na rua, ao lado de painéis informativos com a história da Berliner MauerTroços do muro pintados com quatro cabeças azuis, colocados num relvado junto a uma rua com lojasUm troço do muro pintado com duas pessoas abraçadas, colocado ao ar livre num jardim, com edifícios modernos atrásUm troço do muro pintado com uma cabeça verde, protegido por gradeamento, em frente a um edifício alto de janelas quadradas

Atualmente, o Muro de Berlim já não divide a cidade, mas a sua história continua muito presente nas ruas de Berlim. Ao caminhar pela cidade, é fácil esquecer que existiu ali uma fronteira que separava pessoas que viviam a poucos metros umas das outras. Famílias ficaram afastadas, percursos do dia a dia foram interrompidos e milhares de pessoas arriscaram a própria vida para conseguir passar para o outro lado.

Mas visitar estes lugares é também lembrar o que aconteceu. Por detrás dos pedaços de betão, das pinturas e das marcas que ainda existem estão histórias de pessoas que perderam a liberdade, ficaram separadas das suas famílias e, em alguns casos, perderam a vida. As atrocidades e as injustiças daqueles anos continuam bem vivas na memória e não devem ser esquecidas. Já tinha sentido isto noutros lugares com uma carga histórica semelhante, como o Museu Memorial da Paz de Hiroshima. Conhecer esta história é também perceber o que aconteceu a quem viveu na Alemanha de Leste e lembrar que uma cidade aberta e livre nem sempre foi uma realidade. 🩷