Os City Botanic Gardens situam-se mesmo no coração de Brisbane e são o jardim mais antigo da cidade. Ao longo dos anos, tornaram-se um dos espaços verdes mais apreciados, tanto pelos habitantes como por quem visita a capital de Queensland. Com amplos relvados, árvores centenárias e diversos percursos junto ao rio Brisbane, é um excelente local para dar um passeio, descansar durante algumas horas e fugir à azáfama da cidade. A localização privilegiada, junto ao rio e ao centro histórico, faz com que seja uma paragem muito fácil de incluir em qualquer roteiro por Brisbane.

Tive oportunidade de visitar os City Botanic Gardens em duas viagens diferentes a Brisbane, em 2024 e depois em 2026. As duas experiências foram bastante diferentes. Na primeira visita, o bom tempo permitiu-nos percorrer os jardins com calma. Já na segunda, fomos recebidos por um daqueles aguaceiros típicos de Queensland, que nos acompanhou durante grande parte do passeio e nos obrigou a encurtar a visita.

A história do jardim

Os City Botanic Gardens são muito mais do que um simples jardim público. Sendo o espaço verde mais antigo de Brisbane, acompanharam de perto o nascimento e o crescimento da cidade ao longo de quase dois séculos, tornando-se parte integrante da história da capital do estado de Queensland.

Tudo começou pouco depois da fundação da colónia penal de Moreton Bay, em 1824. Localizada na baía de Moreton, na atual cidade de Brisbane, esta foi uma das primeiras colónias penais estabelecidas pelos britânicos no estado de Queensland, destinada ao envio de prisioneiros condenados no Reino Unido. Naquela época, Brisbane era apenas uma pequena povoação, rodeada por floresta. Foi precisamente junto ao rio Brisbane que os primeiros colonos começaram a cultivar hortas e pomares para abastecer a colónia, aproveitando os solos férteis, a proximidade da água e a facilidade de transporte proporcionada pelo rio. À medida que Brisbane foi crescendo, aumentou também a necessidade de criar um espaço dedicado ao estudo e à aclimatação de plantas. À semelhança do que acontecia noutras colónias do Império Britânico, surgiu a ideia de estabelecer um jardim botânico que servisse não apenas para fins científicos, mas também para introduzir e testar espécies provenientes de diferentes partes do mundo. No século XIX, estes jardins desempenhavam um papel fundamental na investigação agrícola e na troca de conhecimento entre as várias colónias britânicas, ajudando a identificar quais as espécies que melhor se adaptavam às condições locais. Foi com esse propósito que, em 1855, nasceram oficialmente os Brisbane Botanic Gardens, conhecidos atualmente como City Botanic Gardens.

A missão dos jardins era clara: introduzir e testar plantas provenientes da Europa, da Ásia, de África e da América para perceber quais se adaptavam melhor às condições de Queensland. Ao longo dos anos, passaram por aqui culturas como a cana-de-açúcar, o algodão, o café, o chá e o tabaco, bem como diversas árvores tropicais, antes de serem introduzidas noutras regiões do estado e contribuírem para o desenvolvimento da agricultura local. Grande parte deste trabalho ficou a dever-se a Walter Hill, o primeiro curador dos jardins. Botânico apaixonado pela aclimatação de espécies exóticas, dedicou mais de vinte anos ao desenvolvimento deste espaço, introduzindo centenas de plantas. Muitas das figueiras, palmeiras e árvores tropicais que ainda hoje caracterizam os City Botanic Gardens foram plantadas durante o período em que ele esteve responsável pelos jardins.

Com o tempo, os jardins foram mudando de vocação. O que começou por ser um espaço dedicado à investigação científica transformou-se gradualmente num local de passeio e de piqueniques. A proximidade ao rio trouxe, no entanto, alguns desafios. Ao longo da sua história, os jardins foram atingidos por várias cheias, com destaque para a de 1893, que destruiu grande parte das coleções botânicas, e, mais tarde, para as de 1974 e 2011. Em cada um destes episódios, a água danificou árvores, relvados e caminhos, obrigando a extensos trabalhos de recuperação. Ao longo do século XX, tornou-se evidente que os City Botanic Gardens já não dispunham do espaço necessário para continuar a desenvolver o trabalho científico que lhes deu origem. A solução chegou em 1970, com a fundação do Brisbane Botanic Gardens Mount Coot-tha, um jardim botânico muito maior, situado nos arredores da cidade, para onde foi transferida a maior parte da investigação e das coleções botânicas. A partir desse momento, os antigos jardins passaram a assumir sobretudo uma função paisagística e recreativa, mantendo-se como um dos espaços verdes mais emblemáticos de Brisbane.

Atualmente, os City Botanic Gardens ocupam uma área de cerca de 20 hectares (200.000 m²) e recebem milhares de visitantes todos os anos. Muito desse passado continua ainda visível nos seus vários recantos. Grande parte dos percursos segue o traçado original do século XIX, muitas árvores têm mais de cem anos e, ao longo do jardim, encontram-se monumentos e edifícios históricos que testemunham a evolução de Brisbane desde os tempos coloniais. Hoje, continuam a ser um dos cartões de visita da cidade.

Passadiço de madeira sobre a zona de mangal junto ao rio, com as árvores refletidas na águaCanteiro colorido com folhas de coleus vermelhas e amarelas entre folhagem tropicalVegetação tropical e palmeiras dos jardins, com um arranha-céus de Brisbane ao fundoFonte a jorrar no lago dos City Botanic Gardens, com a linha de arranha-céus de Brisbane atrás

O que ver

Os City Botanic Gardens percorrem-se facilmente a pé em cerca de uma a duas horas, o que faz deles uma visita simples de encaixar num dia pela cidade. Apesar da dimensão relativamente reduzida, há vários recantos e pontos de interesse que vale a pena conhecer.

O grande ex-líbris dos City Botanic Gardens são as impressionantes figueiras-de-baía (Moreton Bay Fig), árvores centenárias de enormes dimensões cujos ramos se estendem em todas as direções, formando autênticos túneis de sombra. Algumas foram plantadas ainda no século XIX e continuam a impressionar pela sua dimensão. Outro dos recantos mais fotografados é o bambuzal, uma pequena mata de bambus bem altos por onde a luz se vai filtrando, criando um ambiente muito tranquilo. Junto ao rio encontra-se o passadiço dos mangais, um pequeno percurso num passadiço de madeira que atravessa uma zona de mangal e permite observar de perto este ecossistema tão característico da costa australiana.

Se há uma companhia quase garantida durante a visita aos jardins, são os water dragons (dragões-de-água australianos), lagartos de tamanho médio muito comuns em Brisbane. É praticamente impossível passear por lá sem os ver. Reconhecem-se facilmente pela cor acinzentada e acastanhada e pela crista com pequenos espinhos que percorre a zona das costas e da cauda. Apesar do aspeto quase pré-histórico, são inofensivos e estão mais do que habituados à presença humana. Fazem parte do "pacote australiano", onde a vida selvagem se instala mesmo no meio da cidade!

Mais do que qualquer ponto específico, o verdadeiro encanto dos City Botanic Gardens está em passear sem pressas. Os caminhos acompanham a margem do rio, com vistas para a água e para o Kangaroo Point, mesmo em frente.

  • Onde fica: Alice Street, no centro de Brisbane, junto ao rio Brisbane (perto do Parliament House e da QUT)
  • Horário: Aberto 24 horas
  • Quanto tempo demora: cerca de uma a duas horas para percorrer o jardim com calma
  • Entrada: gratuita
A caminhar sob uma enorme figueira-de-baía centenária, com as raízes aéreas a descer dos ramosSentada num banco à sombra de uma figueira, a olhar para o rio Brisbane com um barco a passarJunto ao bambuzal alto dos jardins, à sombra dos bambusUm water dragon (dragão-de-água australiano) na relva, junto a um caminho de pedraA percorrer um trilho ladeado de palmeiras altas, com os arranha-céus de Brisbane ao fundoJunto a um antigo canhão histórico à beira do rio, com edifícios do outro lado da margemUm water dragon sobre o rebordo de pedra de um caminho, entre folhas secasNum túnel de árvores sobre um caminho ladeado de canteiros, nos jardinsA percorrer uma alameda arborizada, com sombra densa e o caminho a perder-se ao fundoJunto ao relvado às riscas e às fontes do lago, com os arranha-céus de Brisbane atrásEntre palmeiras altas e um edifício alto, num largo de calçada dos jardinsÀ beira do lago dos nenúfares, com um salgueiro-chorão e canteiros de flores cor-de-rosa ao fundo

No meio dos arranha-céus e do movimento de Brisbane, os City Botanic Gardens surgem cheios de história e de vida. Fáceis de visitar, gratuitos e com tanto para descobrir, são uma paragem obrigatória no roteiro por Brisbane, mesmo para quem tem o tempo apertado. 🩷