Se há uma cidade que serve de base para o melhor que o norte da Austrália tem para oferecer, essa cidade é Cairns. Foi aqui que ficámos alojados durante a nossa passagem pelo estado de Queensland, no Novotel Cairns Oasis Resort, e foi daqui que partimos para duas das experiências mais marcantes da viagem: a Grande Barreira de Coral e a Daintree Rainforest. Mas Cairns é mais do que um simples ponto de partida - tem uma história, um ambiente e uma identidade próprios que vale a pena conhecer.

Situada no extremo norte de Queensland, Cairns é uma cidade costeira com cerca de 150 mil habitantes, conhecida pelo seu ambiente tropical e descontraído. Rodeada por floresta tropical e pelo Mar de Coral, combina natureza, história e uma atmosfera multicultural que a tornam muito diferente das grandes cidades australianas. Para perceber o que faz de Cairns um destino tão especial, vale a pena recuar um pouco no tempo.

As origens de Cairns

Cairns é uma cidade relativamente jovem. Foi fundada em 1876 para servir de porto marítimo às minas de ouro do interior de Queensland, tendo recebido o nome de Sir William Cairns, governador do estado na época. Na altura, era apenas uma pequena povoação rodeada por mangais e zonas pantanosas, que tiveram de ser drenadas para dar lugar à cidade que existe hoje.

Quando a corrida ao ouro chegou ao fim, Cairns teve de se reinventar. Foi a agricultura que assumiu esse papel, em especial o cultivo da cana-de-açúcar, favorecido pelo clima tropical e pelos solos férteis da região. A cidade consolidou também a sua importância como porto de exportação, por onde seguiam produtos agrícolas para outras partes da Austrália e do mundo. Durante grande parte do século XX, Cairns manteve-se assim: uma pequena cidade portuária, tranquila e muito ligada à atividade agrícola.

A grande mudança aconteceu nas últimas décadas do século XX. A proximidade à Grande Barreira de Coral e à Daintree Rainforest, aliada à abertura do aeroporto internacional em 1984, fez com que Cairns começasse a atrair cada vez mais visitantes de todo o mundo. O turismo cresceu rapidamente e, em poucos anos, a cidade transformou-se no principal ponto de partida para explorar o norte de Queensland e num dos destinos mais procurados da Austrália.

A orla de Cairns na maré baixa, com as planícies de lama, a roda-gigante The Reef Eye e as montanhas ao fundo

A herança indígena

O norte de Queensland é uma das zonas da Austrália com maior presença de comunidades indígenas, e Cairns não é exceção. Muito antes da chegada dos europeus, estas terras eram habitadas por povos aborígenes e pelas comunidades das ilhas do Estreito de Torres, dois povos indígenas distintos, cada um com a sua própria cultura, tradições e identidade, reconhecidos como os habitantes originários do país.

A ligação destes povos a esta terra é ancestral e a sua herança continua bem presente nos dias de hoje. Em redor de Cairns vivem várias comunidades indígenas que desempenham um papel importante na conservação do património natural e cultural da região. Muitos dos projetos de conservação e das experiências culturais disponíveis para os visitantes são desenvolvidos em parceria com estas comunidades, permitindo conhecer melhor a sua história, tradições e ligação ao território, bem como o profundo conhecimento que têm da floresta e dos seus recursos, transmitido de geração em geração. É também uma forma de recordar que a história desta parte da Austrália começou muito antes da fundação de Cairns, em 1876.

Essa herança reflete-se também na arte e no artesanato da região. Ao passear por Cairns, é comum encontrar galerias e lojas com pinturas feitas à mão, esculturas em madeira e outras peças inspiradas nas tradições aborígenes e das ilhas do Estreito de Torres. Entre os objetos mais emblemáticos estão os bumerangues, utilizados há milhares de anos pelos povos aborígenes para caçar e até em algumas cerimónias. Curiosamente, nem todos voltavam para trás: muitos eram concebidos apenas para seguir em frente e atingir o alvo.

O centro de Cairns em meio dia

O centro de Cairns não é muito grande, por isso é fácil conhecer os principais pontos de interesse a pé. A maioria concentra-se entre a Esplanade e a área da marina, numa zona muito agradável para passear, com jardins e vistas para o mar. Estando alojado no centro da cidade, meio dia é suficiente para conhecer esta zona com calma.

Um bom ponto de partida para explorar o centro de Cairns é o Olympic Torch Monument, na Esplanade. Este monumento assinala a passagem da tocha olímpica pela cidade antes dos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, e é uma pequena paragem interessante para quem gosta de conhecer alguns episódios da história local. A poucos passos encontra-se o Citizens Gateway to the Great Barrier Reef, uma impressionante escultura em aço inoxidável, criada pelo artista Brian Robinson e inaugurada em 2017. Com cerca de seis metros de altura, representa uma grande onda repleta de animais marinhos e aves, liderada por uma raia, simbolizando a biodiversidade da Grande Barreira de Coral. Logo ao lado ergue-se a The Reef Eye, uma roda-gigante com cerca de 35 metros de altura, inaugurada em 2019, que oferece uma bonita vista sobre a Esplanade, a marina e a baía de Cairns.

Na Esplanade de Cairns, junto às planícies de lama na maré baixaA percorrer o passadiço da Esplanade de Cairns, com a roda-gigante ao fundoJunto a um monumento na Esplanade de Cairns, ladeado por palmeiras e bandeirasNuma avenida arborizada no centro de Cairns

Continuando o passeio pela orla costeira, chega-se à Esplanade Lagoon, um dos locais mais emblemáticos de Cairns. Apesar de ser uma cidade à beira-mar, Cairns não tem praias de areia. Em vez disso, a maré deixa a descoberto extensas planícies de lama, habitat de inúmeras aves e pequenos caranguejos. Foi precisamente por isso que a cidade construiu esta grande piscina pública de água salgada, de acesso gratuito e vigiada por nadadores-salvadores, que hoje é um dos locais mais procurados por moradores e visitantes, sobretudo para relaxar e fugir ao calor.

Junto à Esplanade Lagoon, a piscina pública de água salgada de CairnsJunto à escultura Citizens Gateway to the Great Barrier Reef, na EsplanadeJunto à escultura Citizens Gateway to the Great Barrier Reef, com a raia que a lideraJunto às esculturas de tartarugas, na zona da marina de Cairns

Seguindo em direção ao porto, encontra-se o Fishing Pier, também conhecido como "Tip of Cairns", um molhe que avança sobre o mar e que é um bom sítio para ver os barcos atracados e apanhar um pouco de ar puro. Perto dali vale a pena fazer uma paragem rápida no Col's Historical Miniatures, uma curiosa exposição que recria em miniatura a cidade de Cairns e o modo de vida australiano de há mais de 150 anos, com as típicas casas "Queenslander", os antigos pubs e outros edifícios importantes. Mesmo ao lado fica a Cairns Marlin Marina, de onde partem diariamente muitas das embarcações que levam os visitantes à Grande Barreira de Coral, tornando esta uma das zonas mais movimentadas da cidade. É também aqui que se encontra o The Reef Hotel Casino, um dos edifícios mais emblemáticos do centro. A poucos minutos a pé fica ainda o Cairns Convention Centre, um moderno espaço que recebe conferências, espetáculos e eventos ao longo de todo o ano.

Na marina de Cairns, com o pontão e as montanhas ao fundoA ver a maquete da cidade antiga no Col's Historical MiniaturesPormenor do Col's Historical Miniatures, com as casas em miniatura a serem pintadasEm frente ao The Reef Hotel Casino, no centro de Cairns

No fundo, o centro de Cairns não tem um grande número de atrações turísticas, mas é um ótimo lugar para passear sem pressas. Entre a marginal, a marina e a Esplanade Lagoon, meio dia chega perfeitamente para conhecer a cidade, ou até mesmo um dia inteiro, se apetecer simplesmente relaxar e dar um mergulho na piscina. Afinal, nem todas as viagens têm de ser feitas a correr.

No fim de contas, Cairns pode não ser a cidade mais impressionante da Austrália, mas é difícil imaginar uma melhor porta de entrada para explorar o norte de Queensland. Foi daqui que partimos para duas das experiências mais marcantes da nossa viagem à Austrália e foi também aqui que regressámos, no final de cada dia, já cansados, mas de coração cheio e com muitas histórias para contar. 🩷