Muito antes dos dinossauros, os corais já construíam cidades no fundo do mar. A maior delas - a Grande Barreira de Coral, na costa da Austrália - é hoje o maior recife de coral do mundo.

A Grande Barreira de Coral estende-se por cerca de 2.000 km ao longo da costa nordeste da Austrália, no estado de Queensland, e ocupa uma área de aproximadamente 350.000 km². Mas a verdadeira dimensão deste lugar só se percebe quando descobrimos que não é um único recife: é um enorme sistema composto por quase 3.000 recifes e mais de 2.000 ilhas, formando a maior estrutura viva do mundo, tão vasta que pode até ser vista do espaço. Embora algumas ilhas tenham recifes mesmo junto à praia, é nos recifes exteriores, a cerca de 50 km da costa, que se encontram as paisagens mais impressionantes. É aí que a água ganha aqueles tons de azul difíceis de descrever e os corais revelam toda a sua diversidade. À volta deles vivem peixes tropicais de todas as cores, tartarugas, raias e muitas outras espécies marinhas.

Foi precisamente num desses recifes exteriores que vivi uma das experiências mais marcantes da minha viagem à Austrália - e, sem dúvida, uma das mais memoráveis da minha vida. Sobrevoei a Grande Barreira de Coral de helicóptero a partir de Cairns e aterrei numa plataforma no meio do oceano para fazer snorkeling. E posso dizer uma coisa: não é apenas fazer snorkeling. É fazê-lo na Grande Barreira de Coral. Só quando estamos lá é que percebemos a diferença. Neste guia partilho tudo o que precisas de saber para planear a visita, juntamente com as dicas e os detalhes que só descobri depois de lá estar.

Como nasceu a maior estrutura viva do mundo

É difícil acreditar que uma estrutura com mais de 2.000 km de comprimento tenha sido construída por animais com apenas alguns milímetros de tamanho. Os corais são pequenos organismos marinhos, chamados pólipos, que vivem em colónias e produzem um esqueleto de carbonato de cálcio. Quando uma geração morre, esse esqueleto permanece no fundo do mar e torna-se a base para a seguinte. Ao longo de milhões de anos, geração após geração, foram-se acumulando camadas e mais camadas de esqueletos de coral, dando origem à Grande Barreira de Coral que conhecemos hoje.

Mas os corais não crescem em qualquer sítio. Precisam de águas quentes, pouco profundas e com bastante luz, e por isso raramente se encontram a mais de 30 metros de profundidade. É por isso que a Grande Barreira de Coral se divide em dois grandes conjuntos: os recifes interiores, mais próximos da costa, e os recifes exteriores, mais afastados. Depois da última era glaciar (que terminou há cerca de 11.700 anos), o nível do mar subiu e inundou a plataforma continental ao largo de Queensland. Os recifes interiores cresceram sobre antigas colinas que ficaram submersas, enquanto os recifes exteriores se desenvolveram na parte mais afastada dessa plataforma, onde o fundo do mar deixa de ser pouco profundo e começa a descer abruptamente para o oceano.

Hoje, a Grande Barreira de Coral é formada por quase 3.000 recifes. Alguns rodeiam pequenas ilhas, outros ficam isolados no mar, a dezenas de quilómetros da costa. Nenhum é exatamente igual ao outro e cada um tem a sua própria combinação de corais, peixes e outras espécies marinhas. É esta enorme variedade que faz da Grande Barreira de Coral um dos ecossistemas mais extraordinários do mundo e lhe valeu a classificação como Património Mundial da UNESCO, em 1981.

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Onde fica e como chegar

A extensão da Grande Barreira de Coral faz com que não exista um único ponto de acesso. Ao longo da costa de Queensland há várias cidades de onde partem excursões para diferentes zonas deste recife, cada uma com características próprias e uma experiência diferente para quem a visita. Os principais pontos de acesso são:

  • Cairns - é o ponto de partida mais popular e a escolha da maioria dos viajantes que visitam a Grande Barreira de Coral pela primeira vez. Tem um aeroporto internacional, uma enorme oferta de passeios de barco, mergulho e snorkeling e conta também com outras atrações bem imponentes como a floresta tropical de Daintree. Foi aqui que fiquei alojada e de onde apanhei o helicóptero para o recife.
  • Port Douglas - localizada a cerca de uma hora a norte de Cairns, é uma vila costeira pequena e tranquila, conhecida pelo seu ambiente descontraído e mais sofisticado. A proximidade a alguns dos melhores recifes exteriores da Grande Barreira de Coral faz dela uma excelente base para explorar a região. É também uma ótima alternativa para quem procura evitar as multidões e desfrutar de uma experiência mais exclusiva.
  • Airlie Beach - situada mais a sul, é a principal porta de entrada para as ilhas Whitsundays e para Whitehaven Beach. Além de permitir o acesso a diferentes zonas da Grande Barreira de Coral, é também uma boa base para explorar o arquipélago das Whitsundays, conhecido pelas suas praias e águas cristalinas.
  • Townsville e Bundaberg - outras duas cidades que também oferecem acesso à Grande Barreira de Coral, embora sejam destinos menos procurados pelos turistas internacionais e com uma oferta de excursões mais reduzida.

Neste guia, vou centrar-me sobretudo em Cairns, onde fiquei alojada durante a minha visita à Grande Barreira de Coral. Foi a partir daqui que segui para o recife, com voo de helicóptero na ida e regresso de barco. As recomendações que partilho baseiam-se nesta experiência em primeira mão.

Melhor época para visitar

Em Queensland há, essencialmente, duas estações, e escolher a altura certa para visitar a região pode ser a diferença entre desfrutar de dias perfeitos para explorar a Grande Barreira de Coral ou ver os planos condicionados pela chuva.

A estação seca, de Maio a Outubro, é a preferida da maioria dos visitantes - e com razão. Os dias são de céu limpo, as temperaturas são agradáveis (variam entre os 20-29 °C), chove muito pouco e a água fica mais transparente, o que garante uma excelente visibilidade para mergulho e snorkeling. O único senão? Toda a gente sabe disto, por isso é também a época mais concorrida e, regra geral, a mais cara.

A estação húmida, de Novembro a Abril, é outra história: temperaturas mais elevadas, muita humidade e chuvas intensas, muitas vezes acompanhadas por trovoadas, sobretudo ao final da tarde. Em compensação, há menos turistas e os preços costumam ser mais baixos. Há, no entanto, um aspeto importante a ter em conta, uma vez que esta época coincide com a stinger season, o período em que algumas espécies de alforrecas, como a alforreca-caixa, são mais frequentes nas águas costeiras do norte de Queensland. Nos recifes exteriores, afastados da costa, o risco é reduzido, mas nas praias não é aconselhado tomar banho. Nas excursões à Grande Barreira de Coral, sempre que existe risco de alforrecas, as empresas fornecem um stinger suit, um fato de proteção próprio para nadar e fazer snorkeling com segurança.

Nós visitámos a Grande Barreira de Coral no início de Novembro, mesmo na transição entre as duas estações, e tivemos muita sorte com o tempo. Apanhámos um dia de céu limpo, mar relativamente calmo e uma visibilidade excelente debaixo de água, o que tornou a experiência ainda mais especial. Como visitámos um recife exterior, a questão das alforrecas nem sequer se colocou.

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Do céu ao fundo do mar

Casámo-nos em 2024 e, quanto ao destino da lua de mel, nunca houve grandes dúvidas: sempre soubemos que, quando esse dia chegasse, seria a Austrália. Era daqueles sonhos que já andava connosco há anos.

Diz a tradição que os noivos trocam uma prenda entre si. Nós fizemos ligeiramente diferente. Em vez de gastar dinheiro em algo que provavelmente acabaria esquecido numa gaveta, resolvemos investir numa experiência que ficasse para sempre connosco: o voo de helicóptero na Grande Barreira de Coral. Ao início até pensámos em ir e vir de barco, que era a opção mais barata, mas se havia altura para dar o braço a torcer e gastar mais um bocado, era esta. Confesso que foi caro mas, adiantando já, foi das melhores decisões que fizemos na vida.

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Contratámos tudo com a Nautilus Aviation, num pacote chamado Down Under Dive Fly/Cruise. O plano era simples: ir de helicóptero até ao recife, passar algum tempo a fazer snorkeling no meio do oceano e voltar de barco. O voo estava marcado para as 12h40, a sair do Cairns Heliport, com destino ao Hastings Reef.

Passámos a manhã com calma na piscina do hotel e depois fomos a pé até ao heliporto, onde ficava a agência turística. Fizemos o check-in cerca de meia hora antes da partida. Deram-nos uns papéis para preencher e assinar (aqueles formulários de riscos que ninguém lê com atenção mas toda a gente assina à mesma 😅), mostraram-nos um vídeo com as regras de segurança e o que fazer assim que aterrássemos no recife, e entregaram-nos os coletes. Depois foi só esperar que o helicóptero chegasse.

Começámos a ver o helicóptero a chegar bem ao fundo. Quando aterrou, a funcionária ofereceu-se para nos tirar uma fotografia e depois sentou-nos lá dentro. Éramos só nós os dois e o piloto. Puseram-nos uns auscultadores enormes para conseguirmos ouvir o piloto e abafar um pouco o barulho do motor e da hélice. Mas, verdade seja dita, a comunicação não correu lá muito bem. Havia tanta interferência que, a certa altura, o homem falava e nós limitávamo-nos a acenar que sim sem perceber metade. E pronto: chegou o momento que esperávamos. Levantámos voo.

Não sei bem explicar sem parecer que estou a exagerar, mas o voo foi surreal! Foram uns 25, 30 minutos entre Cairns e o recife, e foi realmente extraordinário do início ao fim. O piloto lá ia dizendo uma coisa ou outra e, de vez em quando, inclinava o helicóptero para um lado e depois para o outro, para que tanto eu como o meu marido conseguíssemos ver tudo dos dois ângulos. A tonalidade de azul da água, as ilhas, os corais, os barquinhos ancorados junto aos recifes - tudo incrível! Nenhuma fotografia consegue capturar o que vivenciámos. Tem de se ver com os próprios olhos.

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Depois de almoçarmos, levantaram os pratos da mesa e aconselharam-nos a tomar um comprimido para os enjoos. Nós não estávamos maldispostos, mas a funcionária comentou que o mar estava um bocadinho agitado nesse dia (coisa que, sinceramente, nem tinha notado) e que era melhor prevenir. Optámos por aceitar, para não correr riscos desnecessários.

E então veio outro dos pontos altos do dia: o snorkeling na Grande Barreira de Coral. Deram-nos o colete, as barbatanas e os óculos com o tubo. Ofereceram-nos também um daqueles esparguetes coloridos de piscina e nós dissemos que não era preciso. Cinco minutos depois, percebemos que ia ser demasiado cansativo ter de estar sempre a bater as pernas para não ir ao fundo e lá fomos nós buscar o tal esparguete. Fica a dica: aceitem logo o esparguete.

A primeira vez que metemos a cara debaixo de água foi de ficar sem palavras. Peixes por todo o lado, corais cheios de cor, um mundo inteiro que estava ali enquanto nós andávamos à superfície sem fazer ideia. Passámos quase uma hora a fazer snorkeling e não demos pelo tempo passar. Há um nadador-salvador do barco que está de olho em toda a gente que está na água - bastava alguém afastar-se um pouco mais que ele começava logo a assobiar e a mandar vir para mais perto.

Ah, e esqueci-me de contar, mas a máquina fotográfica à prova de água ficou em Portugal, muito bem guardada e completamente inútil a quinze mil quilómetros de distância. Como vir buscá-la estava fora de questão, acabámos por alugar uma no barco para não ficarmos sem registo fotográfico nenhum.

Terminado o tempo que tínhamos disponível para o snorkeling, voltámos todos ao barco, onde nos serviram um lanchezito - acho que eram umas bolachas, umas tostas e uns cubos de queijo, com direito a bebida à escolha. Entretanto começou a viagem de regresso a terra. Depois de comermos, fomos para a zona exterior do barco para apanhar um bocado de sol. Chegámos ao centro de Cairns por volta das 16h30 e ainda passámos pela Cairns Esplanade para mais um mergulho na piscina e um bocadinho de sol. Fazer snorkeling cansa muito mais do que parece - mesmo com o esparguete, é preciso estar sempre em movimento para não ir ao fundo. Resultado de tudo isto: adormecemos os dois ao sol.

  • Agência: Nautilus Aviation
  • Pacote: Down Under Dive Fly/Cruise
  • Preço: cerca de 500 AUD por pessoa (não inclui a taxa ambiental do recife / reef levy)
  • Ponto de encontro: Cairns Heliport - 2 Pier Point Road, Marina Point, Cairns
  • Check-in: 30 minutos antes da partida
  • Duração total: cerca de 4 horas (nós saímos às 12h40 e regressámos por volta das 16h30)
  • Destino: Hastings Reef (recife exterior)
  • Inclui:
    • Voo panorâmico de helicóptero de 25 / 30 minutos sobre os recifes e ilhotas de areia até ao Hastings Reef
    • Cerca de 1h30 no recife
    • Equipamento de snorkeling
    • Almoço (BBQ australiano)
    • Regresso de barco rápido, com um copo de vinho e queijo incluídos
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A Grande Barreira de Coral entrou para o top 3 de melhores experiências que já tive na vida. Não foi só o voo de helicóptero nem só o snorkeling. Foi o conjunto de tudo, a sensação de estarmos no meio do oceano a olhar para uma realidade que existe há milhões de anos e que continua viva debaixo dos nossos pés. Mas essa realidade está mais frágil do que nunca. O aumento da temperatura da água tem provocado o chamado 'branqueamento dos corais', um fenómeno que os deixa sem cor e os pode levar à morte. Grande parte do recife já foi afetada, e visitá-lo é também perceber a sorte que temos em poder vê-lo assim, e a responsabilidade que temos de o proteger para que continue vivo para as próximas gerações. Há lugares que valem mesmo a pena atravessar o mundo para ver, e este é, sem dúvida nenhuma, um deles. 🩷