Quem conhece o Japão, ou está a planear uma viagem pelo país, dificilmente fica indiferente ao enorme torii vermelho que parece flutuar sobre as águas da baía de Miyajima. Esta é, sem dúvida, uma das imagens mais icónicas do país e um dos cenários mais procurados por quem visita a região de Hiroshima. Mas o Santuário de Itsukushima é muito mais do que o famoso torii. Com origens que remontam ao século VI, este complexo religioso continua a ser um importante local de culto do xintoísmo e um dos maiores símbolos da espiritualidade japonesa.

Ao longo deste artigo vamos descobrir a história do Santuário de Itsukushima, perceber porque foi construído sobre a água e conhecer os principais pontos de interesse deste complexo classificado como Património Mundial da UNESCO. Vou também partilhar a minha experiência de visita, bem como algumas dicas úteis para te ajudar a preparar a tua visita a um dos lugares mais emblemáticos do mundo.

A história do Santuário de Itsukushima

As origens do Santuário de Itsukushima remontam ao século VI. A tradição atribui a sua fundação a Saeki no Kuramoto, no ano de 593, embora não existam registos que permitam confirmar a data com rigor. A ilha onde foi erguido chama-se oficialmente Itsukushima, tal como o santuário, mas é hoje conhecida sobretudo como Miyajima, que significa “ilha do santuário”. Desde os primeiros séculos da sua história que a ilha foi considerada sagrada pelo xintoísmo, razão pela qual, durante muitos séculos, a população evitava pisar este local. Para preservar a pureza da ilha vigoraram tradições muito rigorosas: os nascimentos e os funerais eram mantidos fora do seu território, e quem estava doente ou prestes a dar à luz era levado para o continente. São práticas associadas à sacralidade histórica de Miyajima, ainda que não seja claro até que ponto foram cumpridas de forma uniforme ao longo de toda a história da ilha. Acreditava-se que a ilha era habitada por divindades e, por esse motivo, quem a visitava chegava de barco, atravessando primeiro o grande torii antes de entrar no recinto sagrado. Este tradicional portão vermelho assinala a entrada num espaço sagrado e é um dos elementos mais característicos dos santuários xintoístas.

Grande parte do complexo que hoje podemos visitar ganhou a sua forma atual no século XII, quando Taira no Kiyomori, líder do poderoso clã Taira e uma das figuras mais influentes do Japão Feudal, ordenou a ampliação do santuário. Foi também nesta fase que o santuário adquiriu a sua arquitetura bem característica, com edifícios assentes sobre pilares de madeira e ligados entre si por passadiços. Esta solução permitia preservar o caráter sagrado da ilha e é também responsável pela ilusão de o santuário flutuar sobre a água durante a maré alta.

Apesar de ter mais de 1400 anos de história, o Santuário de Itsukushima nunca permaneceu exatamente igual. Ao longo dos séculos, vários incêndios, tufões e outros fenómenos naturais obrigaram à reconstrução de diferentes edifícios do complexo, sempre com o cuidado de preservar o aspeto original e respeitar as técnicas tradicionais de construção em madeira. Em 1996, foi classificado como Património Mundial da UNESCO, sob a designação “Itsukushima Shinto Shrine”, em reconhecimento da sua importância histórica, cultural e religiosa, e continua a ser um dos mais importantes locais de culto do xintoísmo no Japão, bem como uma das principais atrações de Miyajima.

O que visitar

Embora o grande torii seja o elemento mais conhecido, há muito mais para descobrir dentro do Santuário de Itsukushima. Localizado mesmo em frente à baía de Miyajima, o complexo é formado por vários edifícios religiosos, pavilhões e passadiços de madeira construídos sobre pilares. A proximidade com a água faz parte da identidade do santuário e é graças a ela que a paisagem se transforma ao longo do dia, à medida que a maré sobe e desce.

Os horários e os preços podem mudar, por isso confirma sempre a informação atualizada no site oficial do Santuário de Itsukushima.

  • Horário: aberto todos os dias, com horários que variam consoante a época do ano
  • Preço: 300 ienes (adultos)
  • Como chegar a Miyajima: Nós apanhámos um táxi do centro de Hiroshima, junto ao Museu Memorial da Paz, até à Estação de Shin-Hakushima. De lá, apanhámos o comboio da San-yō Line (linha azul-escura) até à Estação de Miyajimaguchi - 8 paragens, cerca de 23 minutos, incluído no JR Pass. Da estação, são cerca de 5 minutos a pé até ao terminal do JR West Miyajima Ferry, onde apanhámos o ferry para Miyajima. A travessia demora cerca de 10 minutos e também está incluída no JR Pass. Existem duas opções incluídas no passe, o JR West Miyajima Ferry e o Great Torii Ferry, mas o primeiro tem maior frequência.

O grande torii (Ōtorii)

O grande torii é o símbolo mais conhecido de Miyajima e uma das imagens mais facilmente associadas ao Japão. Com cerca de 16,6 metros de altura, a estrutura atual foi construída em 1875 e destaca-se pelo seu tom vermelho-alaranjado, que ganha diferentes tonalidades conforme a luz ao longo do dia. Mas é com a mudança da maré que a paisagem realmente se transforma. Quando a água sobe, o torii parece flutuar sobre o mar, criando aquela imagem tão característica da região de Miyajima. Na maré baixa, é possível caminhar pela areia até aos seus pilares e observá-lo de perto, de uma perspetiva completamente diferente. Foi desta última forma, com a maré baixa, que visitámos Miyajima. Embora o dia não estivesse perfeito em termos de tempo, foi uma experiência engraçada poder chegar tão perto de um dos símbolos mais conhecidos da ilha.

O salão principal e os passadiços de madeira

O salão principal é o coração do santuário, dedicado às três filhas de Susanoo-no-Mikoto, e está ligado aos restantes edifícios por longos corredores de madeira. Esses passadiços permitem percorrer todo o complexo e apreciar de perto os detalhes da arquitetura.

O palco de Nō

O palco de Nō está ligado ao teatro Nō, uma forma tradicional de teatro japonês que combina música, canto, dança e representação, sendo também conhecido pelo uso de máscaras. O palco foi construído em 1590, por ordem de Toyotomi Hideyoshi, e é considerado o único palco de Nō construído sobre a água no Japão. A sua localização permitia que as representações fossem acompanhadas a partir dos edifícios e passadiços do santuário. O palco original foi destruído por um incêndio em 1597 e acabou por ser reconstruído posteriormente.

A ponte Soribashi

A ponte Soribashi encontra-se no lado oeste do santuário, junto ao corredor que leva à saída, e destaca-se pelo seu formato bastante arqueado. A ponte aparece já em documentos do século XIII e é também conhecida como Chokushi-bashi, ou “ponte dos mensageiros imperiais”. Era por aqui que os mensageiros do imperador passavam para entrar no salão principal durante algumas das cerimónias mais importantes do santuário. A ponte que vemos atualmente remonta a 1557, quando foi reconstruída por Mōri Motonari e pelo seu filho Mōri Takamoto. Por ser bastante inclinada e ter degraus, atualmente não é utilizada pelos visitantes, mas pode ser observada durante o percurso pelo complexo.

Para além do santuário, vale a pena dar uma volta pelas ruas de Miyajima. A Omotesando Shopping Street é a principal rua entre o santuário e o cais onde atracam os barcos e está cheia de lojas e restaurantes. Pelo caminho, encontramos vários produtos tradicionais da ilha, desde peças de madeira e artesanato local até algumas das especialidades de Miyajima, como as famosas ostras grelhadas. E, além disso, há muitos veados em Miyajima! Eu pensava que era uma coisa mais típica de Nara, mas a ilha também tem muitos, espalhados pelas ruas e junto à entrada do santuário.

Outro dos grandes destaques de Miyajima é o Monte Misen, o ponto mais alto da ilha, com cerca de 535 metros de altitude. A subida permite ter vistas panorâmicas sobre o Mar Interior de Seto, sendo que no topo existem vários locais ligados à história religiosa da montanha. Nós não tivemos oportunidade de subir, mas, se tiveres mais tempo em Miyajima, parece-me uma excelente opção para completar o passeio pela ilha.

A visita a Miyajima foi uma forma de conhecer um lado ligeiramente diferente da região de Hiroshima. Quando pensamos nesta zona, é inevitável pensar na bomba atómica e em toda a história ligada à Segunda Guerra Mundial, mas há muito mais para conhecer. Miyajima mostra precisamente esse outro lado, mais ligado à história, à cultura e à espiritualidade japonesa. É uma paragem que se consegue encaixar facilmente num roteiro de um dia completo dedicado a Hiroshima. 🩷

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